Lídia Jorge, o mundo isolado




Lídia Jorge (1946) quando surge para a literatura portuguesa, em 1980, é com uma obra que marcará toda sua carreira: O dia dos prodígios. O romance, ainda que de estreia, apresenta em si os elementos de uma obra madura e em perfeita sintonia com as características das grandes obras contemporâneas.

De construção fragmentária e com variação gráfica no corpo do texto, volta-se para a discussão de valores que perpassam uma comunidade aldeã do Algarve. Na obra, todos os acontecimentos da vida cotidiana da aldeia são mostrados pelo olhar de uma comunidade inteiramente fechada em si mesma e isolada do mundo.

Nela, o padrão de comunicação é a oralidade, pois o letramento dos aldeãos é rudimentar e todos os acontecimentos são vazados por uma linguagem peculiar que, representa a oralidade regional do Algarve. No plano temporal, os acontecimentos que compõem o enredo estão concentrados em um intervalo relativamente curto de tempo, que inclui o momento da Revolução dos Cravos, que, entretanto, chega inteiramente distorcido à Vila Maninhos, pois o isolamento a que os moradores da aldeia estavam submetidos os aliena de seu significado e os submete a um regime de relações fundadas em superstições e em exploração em que a feminina não é a menor.

Este mesmo universo está presente em O cais das merendas (1982), ainda ambientado no Algarve, com as mesmas marcas de representação da oralidade da região, mas apresentando o processo de dissolução progressivo das aldeias ocorrido após a Revolução. Esta, a Revolução dos Cravos e suas profundas consequências para a sociedade portuguesa, continuam ser o pano de fundo para obras subsequentes como Notícia da cidade silvestre (1984) e A costa dos murmúrios (1988) em que questões como a condição feminina e a Guerra Colonial são centrais. A continuidade da obra de Lídia Jorge mostra-se como rigoroso desdobramento destes problemas que, desde o início, se colocavam em sua obra.


* Texto da Profa. Dra. Marlize Vaz Bridi para a edição sobre Literatura Portuguesa da coleção Caderno Entrelivros 

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Boletim Letras 360º #239