A pedra do reino, de Ariano Suassuna

Por Pedro Fernandes



Li este romance ainda no período de minha Graduação em Letras. Ainda não estava contaminado por essa coisa que vai infestando a quem se debanda para a vivência acadêmica. A coisa que digo é a teoria. A necessidade de apelo ao jogo teórico que corrói e adoece as mentes acadêmicas. Era o período em que o tempo ainda me sorria. Encarar um catatau de mais de 600 páginas foi proeza rara só vencida quando tive diante de mim a leitura do Dom Quixote. Por falar nesse clássico da literatura universal, enxergo, guardando, é óbvio, as devidas proporções, muito do romance-epopeia de Cervantes. Já veremos o porquê.

A pedra do reino foi publicado em 1970, e é até o presente, um romance cuja completude não é firme. Isso porque, o próprio escritor, ao comentar do projeto de escrita desse romance, assinala a existência de duas outras partes, compondo, assim, uma trilogia. Entretanto, nenhuma das duas vieram a público; fato justificado pelo esmero da dedicação que Ariano dedica às suas obras: escreve a mão várias e várias vezes, compõem não apenas o desenvolvimento do fio narrativo, mas outras peças que findam constituindo a tessitura da obra, seja um cordel (fonte da qual se alimenta toda sua literatura), seja as diversas ilustrações. 

Já foi apontado pela crítica como um romance de leitura árida. Afugento, desde já, esta constatação. Na verdade, até hoje, não consigo entender certos clichês montados pela crítica em torno de determinadas obras. Cito alguns casos em que a idéia de aridez textual se apresenta como um invólucro que endeusa a obra e a coloca distante do leitor, provocando neste, desde que tal boato se espalha, um certo receio para com a obra: clássico é Machado de Assis com o seu Memórias póstumas de Brás Cubas ou Guimarães Rosa com o seu Grande sertão: veredas ou ainda James Joyce com o seu Ulysses. Só não me refiro ao último, porque este ainda não o li, mas aos dois primeiros, Machado de Assis e Guimarães Rosa, não vejo aridez alguma para a leitura dos citados romances. São escritores, sim, que alcançam um estágio de lapidação da linguagem em que escreve e que exige, certamente, do seu leitor um esforço outro para apropriar-se de seus territórios de leitura. Mas nada que passado algumas páginas não já esteja o leitor em pacto com os propósitos do escritor. Isto também se aplica ao A pedra do reino.

Trata-se de um romance que explora ao seu limite o grau do movimento preconizado por seu autor - o movimento armorial. Movimento que visa, dentre outras relações, colocar em pé de diálogo a cultura popular caboclo-sertaneja com outras tradições já incorporadas como de alto grau, como a tradição ibérica trazida para o Brasil sobretudo para a região Nordeste do país quando da vinda dos colonizadores europeus. Exemplo de concretização desse diálogo é a vivência, no interior de uma mesma trama, da linguagem erudita com a linguagem simples dos folhetos de cordel. Ou ainda a tentativa de uma língua erudita tomando como raiz a língua do sertanejo, como ensaia o Quaderna ao longo do romance.

Narrativa que toma como pano de fundo os eventos histórico-populares da Pedra Bonita- espécie de início para um movimento messiânico nessa região da Paraíba configurado em quatro jornadas sangrentas, entre os dias 14 e 18 de maio de 1838 e que levou à morte pelos menos 83 pessoas - Ariano Suassuna constrói uma epopeia sertaneja que se dá pelos movimentos da memória de D. Dinis Ferreira, o Quaderna, que, preso em Taperoá, acusado de subversão ao então regime político, faz sua própria defesa perante o corregedor. Inicia-se, para tanto a contar a história de sua família, das desavenças, das lutas e das controvérsias políticas, literárias e filosóficas em que se vira envolvido.

É nesse itinerário psíquico que enxergo proximidades com o herói cervantino. É Quaderna imbuído do mesmo desejo quixotesco pela aventura e pela ressignificação da realidade em que se está inserido.

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