quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Ana Luísa Amaral: sentou-se ao meu lado e subiu à tribuna

Por Pedro Fernandes



1. Os leitores que por acaso gostarem de frequentar este espaço já deverão está cansados de ler essas notinhas sobre nomes da literatura ou dos estudos literários com os quais travei contato ou pude apreciar durante o Congresso da Associação Brasileira de Professores de Literatura Portuguesa realizado em setembro de 2009, em Salvador. Sim, porque antes de Ana Luisa Amaral falei aqui sobre Maria Teresa Horta, Cleonice Berardinelli e Manuel Rui,

2. Assim, como os dois primeiros nomes sobre os quais redigi notas para o Letras, já conhecia alguma coisa da poeta portuguesa a partir da obra Entre dois rios e outras noites. Mas, sempre desatento a associar obra à face dos autores, o encontro com Maria Luisa Amaral diferiu do contato com Maria Teresa Horta e Manuel Rui. É anedótico até, mas vou registrar porque se trata de uma grata surpresa.

3. Num dos dias do congresso uma senhora me pergunta, gentilmente, se na cadeira do meu lado não havia alguém. Na resposta negativa, sentou-se ao meu lado. Pela expressão da fala, soube, claro, que não era brasileira. Mas, foi no último dia do evento, que estava anunciado a fala de Ana Luisa Amaral, que se deu a surpresa. Apesar do cansaço de uma semana inteira entre o ir e vir de momentos acadêmicos como este, tive a curiosidade de ocupar uma das cadeiras do auditório para ouvi-la falar.

4. E, para minha surpresa, quem sobe à tribuna foi nada menos do que aquela senhora que sentara ao meu lado dias antes. Foi uma conferência pungente, revelando o quanto de poeta há no tom professoral de Ana Luisa. Revivi o mesmo encantamento da fala de Maria Teresa Horta porque cada poro das palavras por ela proferidas respirava poesia. 

5. Nascida em Lisboa em 1956,  Ana Luisa é professora de Literatura e Cultura Inglesa e Americana na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Até o momento, é ganhadora do importante Prêmio Literário Casino da Póvoa, atribuído no âmbito do encontro de escritores de expressão ibérica Correntes d'Escritas na Póvoa de Varzim, com a obra A Génese do Amor. Em Salvador trazia na bagagem para lançamento Se fosse um intervalo. Mas, já publicou, além dos títulos que citei aqui, Minha senhora de quê, Coisas de partir, E muitos os caminhos, As vezes o paraíso A arte de ser tigre.

6. Do livro apresentado em Salvador, recorto três poemas:

CONSTELAÇÕES

Usamos todos a ilusão
de fabricar a vida:
história, constelações
de sons e gestos

Usamos todos a suprema glória
do amor: por generosidade
ou fantasia, ou nada, que de nada se fazem
universos

Usamos todos mil chapéus de bicos
mal recortados e de encontro
ao sol:

o nosso mais perfeito em franja e bico
e um arremedo tal e seicentista
que ofuscando-se: o sol
Usamos todos esta condição
de pó de vento, ou de rio
sem pé: único dom de fabricar o tempo
em raiz de palmeira
ou de cipreste


UMA COISA SEM TÍTULO E APÓCRIFA

Um Moisés
decepado
segurando nos dentes
bordão curto demais
para nascente

Um arbusto tão curto
que o seu fumo crescesse
para logo morrer
e nunca mais
Luminosas partículas de pó,
Abraão sem sequer
a dádiva de
sonho

Espaços de projecção como em cinema,
partículas de pó iluminadas:
o invisível pó que se respira em vão
em desertos de fé,
salas vazias

E uma coisa sem título
e apócrifa
nem sequer hora sexta
mas uma
(tão prosaica)
da manhã


ENCENAÇÕES E QUASE VOOS

Uma luz construída
ilumina
esses santos,
cada um sem o halo,
mas pombo circundante
na cabeça

São quatro santos no cimo
da igreja,
e cada um dos pombos escolheu
a face mais marcada,
os caracóis de pedra
que fossem mais macios

Talvez não sejam santos,
mas apóstolos, tão de barroco,
e o seu gosto a vestir:
um excesso de desvio
quase pecado

Apóstolos ou santos,
os pombos circundantes na cabeça
são halos delicados
que, julgando-se em céu,
vêem quase metade da cidade,
a meio: o rio e os telhados
de casas

Fingindo-se de mão a abençoar,
são adereço de um teatro
inteiro:
caos encenado
ou um perfil egípcio

E os caracóis solenes e sombrios
convidam ao pecado
e convocam-me aqui: noite de verão,
a liquidez do olhar:

Eu não poder,
em pedra,
abrir as asas