quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

O iPad

Por Pedro Fernandes

1. Uma nova onda tem balançado e muito as opiniões de quem tem uma relação mais íntima com a escrita e a leitura - principalmente essa última. O motivo para tanto veio da Apple que lançou no último dia 27 de janeiro de 2010 uma espécie de iPhone gigante, gentilmente batizado de iPad. A relação com a leitura será uma das abaladas com a invenção, dizem os inventores, porque dentre todas as praticidades que estão atreladas ao aparelho uma delas é a que visa ser um leitor de livros eletrônicos.

2. Parte dessa balbúrdia, entretanto, deve ser controlada. Não vivi o tempo do surgimento da máquina de escrever e quando do surgimento dos computadores e dos notebooks ainda tinha minha cabeça enfiada noutro mundo - mas creio que, essas tecnologias tenham também elas causado algum mal entendido entre os tais sujeitos da escrita e da leitura na época. Mas, se dizem que nos acostumamos a tudo - a ambas tecnologias nos adaptamos e com ela só tivemos a enriquecer escrita e leitura.

3. Se a moda do iPad pega me parece que vem aí uma nova era da escrita. Quase que totalmente digital; o que muda a relação do sujeito com o texto; o próprio texto e também o mercado da escrita - hoje controlado pelo potentado das editoras. O mercado do livro poderá passar por um processo de massificação pelo qual passou o mercado da música. Isso representa, como tudo na vida, um fator positivo e outro negativo: o primeiro é a descentralização dos mercados das letras - todos poderão ter seus livros e o sucesso dependerá única e exclusivamente do escritor (isso não é novidade se repararmos que a febre dos blogs já de certa maneira tem incorporado isso no cotidiano); o segundo fator, o negativo, é a desestabilização da arte literária. Se hoje já muito se escreve e pouco se aproveita, o que dizer então dessa transferência de "poder" da escrita?

4. Tudo caminha, portanto, para uma reinvenção daquilo que nunca se pensou - quando ainda do surgimento das primeiras garatujas - a escrita. Vejo que cada vez mais se é necessário ser dono da letra para poder fingir-se dono da linguagem, dono de si, dono do mundo.