sexta-feira, 18 de junho de 2010

José Saramago: irreperável perda

Por Pedro Fernandes

Chorei a morte de José Saramago como se tivesse perdido um pai; minha relação com a pessoa José Saramago se deu pela sua obra, afinal nunca fui um leitor guiado primeiro pelo efeito tiete do escritor. Ele, por através dela e de seu pensamento dialogamos; sim, porque o escritor português foi dos que acreditam sobre a impossibilidade de separar o escritor pessoa civil do autor da obra. Um e outro, dizia, estão implicados. E justo por essa razão, e pelo cuidado que sempre teve em lidar com toda sorte de questões sobre a comunidade humana, ele me era, como para muitos, um porta-voz para o mundo porque tinha a capacidade de dizer sobre as minhas e as nossas inquietudes

A razão de ter mudado a cor do plano de fundo do blog, trocando a alegria do amarelo pelo tom da ausência de cor justifica-se pela ausência de alguém que lutou incansavelmente contra a hipocrisia e a injustiça humana. Não tenho dúvidas de que o mundo está mais pobre hoje, porque perdeu uma de suas vozes mais ativas e um de seus pensamentos mais lúcidos. De negro ficará o blog até o dia 20 de junho, quando as cinzas de seu corpo voltarem a sua terra.

José Saramago em Lanzarote. Foto: Sebastião Salgado

Olho de cima da ribanceira a corrente que mal se move, a água quase estagnada, e absurdamente imagino que tudo voltaria a ser o que foi se nela pudesse voltar a mergulhar a minha nudez da infância, se pudesse retomar nas mãos que tenho hoje a longa e húmida vara ou os sonoros remos de antanho, impelir, sobre a lisa pele da água, o barco rústico que conduziu até às fronteiras do sonho um certo ser que flui e deixei encalhado algures no tempo

José Saramago, As pequenas memórias



* 16 de novembro de 1922, Azinhaga, Golegã
- 18 de junho de 2010, Lanzarote