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Mostrando postagens de Março, 2011

Miacontear - O homem cadente

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Por Pedro Fernandes

Este é o segundo conto de O fio das missangas. Misto de sonho kafkiano, o conto dá contas de um fato insólito: Zuzé Neto, amigo do narrador, 'cisma' e de um hora para outra, já no início do conto, "está caindo". Vale dizer que a linguagem, nesse conto, é seu ponto de reflexão maior. Ao usar o 'caindo' como expressão de um fato e para uma forma verbal - cair - que,  pelo sentido que carrega, supostamente não lhe permite um gerúndio, o narrador acaba por ressaltar o poder demiúrgico da palavra. "Aquele gerúndio era um desmando nas graves leis da gravidade: quem cai já caiu" ¹ A palavra que rege o mundo e o constitui também é capaz de por em xeque as próprias leis fechadas das ciências exatas.
E Zuzé Neto flutua no ar, "como água real", em artes de aero-anjo". O fato é suficiente para instaurar o espaço inominado no centro dos interesses. Em torno da forma aero-angelical que se torna um evento discursivo se inaugura t…

Onze obras do teatro moderno e contemporâneo fundamentais a todo leitor

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O teatro é uma das artes mais antigas da história da humanidade. Sua prática recorre a um tempo imemorial, identificado com as práticas religiosas e mágicas das primeiras sociedades; nasce envolto à música e ao canto e está, assim, num tempo anterior ao da arte literária. Massaud Moisés em A criação literária sublinha que os documentos mais antigos ancoram o nascimento dessa expressão em solo grego, aproximadamente no século VI a. C.
Nesta postagem, listamos algumas das peças fundamentais à biblioteca de todo leitor interessado ou não a essa manifestação artístico-literária. É uma lista que desmembrada de outra, que copiou obras essenciais dessa forma em prosa na antiguidade grega e europeia. Os títulos dessa lista são de autores contemporâneos – grande parte dedicada à renovação e, logo, atualização da forma em seu tempo.
Não se trata como costumamos lembrar de uma lista completa, única e definitiva; são indicações. Também não é um ranking entre melhores ou piores peças. E, dada a…

Os fragmentos de uma geometria a Leontino Filho

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Por Pedro Fernandes



Quantas faces comporta um poeta? Drummond em seu “Poema de sete faces” deixou, entrever, pelo signo que nomeia o próprio poema, que seriam sete. Fernando Pessoa, entretanto, rompe as contas e se fez “em mais pedaços do que havia loiça no vaso”. Dessa pergunta, instituo outra. Em que consiste a arte poética? Jorge Luis Borges em “Arte poética” “enumera” alguns dos fazeres. Murilo Mendes põe todas as enumerações possíveis em três versos: “Os diversos personagens que encerrei/ Deslocam-se uns dos outros, fundam uma comunidade/ Que eu presido ora triste ora alegre.” E Mia Couto, numa de suas avalanches poéticas, completa: “e eu invento o que escrevo/ escrevendo para me inventar”.
Se fôssemos buscar uma face que definisse Leontino Filho, diríamos, que todas as faces possíveis começa e finda somente numa: a de ser poeta. E isso não o faz, em momento algum, inferior à ordem dos que se multiplicaram para ser-se. Sua unidade o faz tão plural quanto. E me refiro a plural nã…

Lygia Fagundes Telles na tela

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Aproveitando o aniversário de 88 anos de Lygia Fagundes Telles e a programação especial elaborada por ocasião da data pela Cinemateca Brasileira (Largo Senador Raul Cardoso, 207 – Vila Mariana. São Paulo/SP) fica a seguir a dica (para nós que estamos tão longe de Sampa) de filmes baseados ou inspirados na obra da escritora. Alguns nunca entraram em cartaz, mas podem ser adquiridos (não sem muita birra certamente) junto à Cinemateca.


Jogo da memória (1992) - curta inspirado no romance Verão no aquário, produzido sob direção de Denise Vieira Pinto. Trata-se de um filme cujo enredo é um jogo onde se misturam o passado e o presente: à medida que Tio Samuel toca nas fotos, elas tornam-se realidade para Raíza.
Contos de Lygia e Morte (1999) - longa em episódios sob direção de Luciana Solim; é uma adaptação de três contos da escritora, interligados pelo tema da morte e publicados nos livros A Estrutura da Bolha de Sabão e Antes do Baile Verde. Os dois primeiros, "Venha Ver o Pôr-do-sol&…

Miacontear - As três irmãs

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Por Pedro Fernandes


É conto de abertura do livro O fio das missangas. O enredo dá conta de quatro personagens. Gilda, Flornela e Evelina, filhas de Rosaldo, viúvo que leva o 'protecionismo paterno' ao extremo: cria as meninas num completo estado de isolamento. São-lhes as filhas "exclusivas e definitivas".

O olhar do narrador contempla as três irmãs com o olhar de quem contempla um quadro; estratégia elaborada pelo autor para passar à superfície da narrativa a monotonia com que se movimentam esses perfis femininos no seu espaço cotidiano, ou o silêncio e o estágio de submissão a que estão submetidos. Esse olhar também consegue traduzir o movimento do tempo e a própria existência das personagens, já que dilata a ideia de tempo cronológico para um tempo psicológico.  Trata-se de um olhar que divaga pelas margens do quadro, mas o intuito está em extrair com palavras o silêncio da composição.
Cada uma das três irmãs são criadas para suprir as necessidades de Rosaldo. Ass…

Cruviana

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É este o nome-vento que desponta pela web vindo de um grande idealizador, o jornalista Jotta Paiva. Cruviana. Uma revista de contos. E que pretende, como muitas boas ideias que surgem de solos idealizados, render bons e saudáveis frutos.

No editoral lê-se a explicação para o título da revista. Vem ele de uma expressão típica do vocabulário nordestino que "quer dizer 'frio intenso'. Não se trata de um frio comum, mas de uma sensação de frio que chega de madrugada, provocando calafrios como se fossem provocados por uma ação mística e metafísica."

Nada mais sensato então para o nome de uma revista que deverá se dedicar a um gênero literário breve como o conto, que num só movimento é-nos capaz de deixar tomados de um conjunto de sensações diversas toda vez que estamos diante de um objeto desses digno de um signo artístico-literário.
A revista que tem previsão de lançamento para o mês de junho próximo, terá tiragem eletrônica e semestral e vem pelo Selo Sarau das Letras…

À 18, encontro com José Saramago (IX)

Inciativa posta na rede desde o dia 18 de julho de 2010; todo 18 de cada mês durante nove meses leitores saramaguianos do mundo inteiro reuniram-se para ler um fragmento de sua obra e brindá-lo com uma taça de vinho. A iniciativa deu-se a partir do romance O ano da morte de Ricardo Reis, em que segundo Fernando Pessoa, personagem desse romance, o homem levaria outros noves meses como aqueles para vir ao mundo para partir desse mundo dos vivos.  Este blog seguiu a iniciativa e hoje, último mês, recorto o fragmento do romance que deu impulso à ideia.
***
Olham-se ambos com simpatia, vê-se que estão contentes por se terem reencontrado depois da longa ausência, e é Fernando Pessoa quem primeiro fala, Soube que me foi visitar, eu não estava, mas disseram-me quando cheguei, e Ricardo Reis respondeu assim, Pensei que estivesse, pensei que nunca de lá saísse, Por enquanto saio, ainda tenho uns oito meses para circular à vontade, explicou Fernando Pessoa, Oito meses porquê, perguntou…

O fio das missangas, de Mia Couto

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Por Pedro Fernandes


O livro de contos O fio das missangas, de Mia Couto, chega ao Brasil através da Companhia das Letras em 2009 (imagem). O livro é composto de um feixe (ou seria um fio?) de 29 histórias (ou seriam 29 missangas?). A dúvida se o livro é um fio e os contos as missangas é instaurada já na epígrafe do livro - A missanga, todos a vêem. Ninguém nota o fio que, em colar vistoso, vai compondo as missangas. Também assim é a voz do poeta: um fio de silêncio costurando o tempo. E se confirma quando somos colocados diante a delicatesse dessas 29 histórias. Estão elas, assim reunidas, mais para a composição do perfil das missangas.

São histórias leves, densas, "arredondadas", diferentes no tom, mas não tão diferentes na forma, que juntas dão conta de silêncios e compõem silêncios - das mulheres, dos homens, dos da margem (o mendigo, a criança, o poeta). Mia Couto põe em suspense a ideia de que o contista está para apenas a observação e a escrita (narração) de histórias …

Correspondência na Barca: cartas trocadas entre Monteiro Lobato e Lima Barreto

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Por Antonella Flavia Catinari


Lima, Está escrito no livro do destino que não nos veremos nunca. (...) Espero, porém, que os fados afrouxarão suas leis férreas, e um belo dia, quando menos esperarmos, – Lima! – Lobato! e ferraremos esse abraço encruado. Lobato.
(Bilhete enviado por Monteiro Lobato a Lima Barreto, em outubro de 1920, por ocasião da visita de Lobato ao Rio de Janeiro e recolhido por Edgard Cavalheiro em A correspondência entre Monteiro Lobato e Lima Barreto, publicada pelo Ministério da Educação e Cultura, em 1955)

Analisar a obra e a vida de Monteiro Lobato é um prazer e um desafio constantes, por trazer em cada nova mirada um ângulo ainda não revelado. Ao me debruçar na janela que permite vislumbrar sua trajetória, é sempre uma nova paisagem que se configura ante meus olhos. Como afirma Regina Zilberman em O correspondente fiel e a pesquisadora incansável, “Lobato sempre será capaz de apresentar uma faceta original ao indivíduo curioso e amante de sua obra”.
Dentro da…

Do dia da poesia e do Programa Pedagogia da Gestão: encontros

Por Pedro Fernandes

1. Ontem a noite estive em Mossoró para um programa da TCM, TV a cabo local, o Pedagogia da Gestão, que é comandado pelos âncoras João Maria e Clauder Arcanjo. O programa era especial: assinalava o início das comemorações de sete anos desde sua criação como um programa de rádio, que agora além de ser veiculado na TV ainda preserva uma coluna homônima no jornal Correio da tarde. Além da data, o Dia Nacional da Poesia e o Dia Internacional da Mulher.
2. Devo dizer da satisfação em ter aceitado o convite de João Maria para participar desse programa, que, como verão, foi um grande celebração em torno da poesia. Estavam presentes o jornalista, escritor e poeta Mario Gerson, o poeta e professor Leontino Filho, a jornalista e poeta Aline Linhares, de quem recebi seu mais recente livro Estrada de néon, o poeta Antonio Francisco, e outras figuras que, por serem muitas e este ser um registro de memória não consigo lembrar agora.
3. Fica aqui o registro e os parabéns aos mentore…

Dez livros que ganharam (ou quase) o Oscar

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Por Daniel Morales

Alguns amantes do cinema conservam a paixão pela sétima arte além da sala do cinema; dos filmes cujo roteiro nasce das páginas de um livro, também preferem, alguns antes da peça cinematográfica, a obra que lhe deu origem. Pois bem, esta é uma lista pensada para o leitor cinéfilo ou o cinéfilo leitor. E como são muitas as adaptações literárias, utilizamos um critério para pensar os títulos aqui incluídos: as que foram nomeadas ou tiveram uma ligação com as premiações do Oscar.
Por mais que se critique o efeito comercial de Hollywood, é preciso sublinhar que alguns livros talvez tivessem caído no esquecimento se não fosse a relevância alcançada pelo filme entre os premiados ou premiáveis. Um exemplo? Todos sabem que Perdidos na noite é um filme que ganhou  o prêmio de Melhor Filme, mas poucos sabem que o roteiro é produto do livro de James Leo Herlihy. Bom, aí está a lista. São de filmes baseados em obras literárias que ganharam ou estiverem nomeados ao Oscar de Melhor…

Marguerite Duras

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Marguerite Duras nasceu em Gia Dinh, na Indochina (atualmente Vietnã), em 1914, onde passou a infância e a adolescência. A estadia na então colônia francesa será um marco na vida da obra literária de Duras. É ainda na adolescência que ela tem um caso com um homem chinês rico, personagem que retornaria mais tarde nos seus livros O amante e O Amante da China do Norte. Foi para a França aos 17 anos. Lá cursou Direito e Ciência Política no Sorbonne, formando-se em 1935. No correr da Segunda Guerra Mundial, Duras tomou parte na Resistência Francesa, filiando-se também no Partido Comunista.
Duras foi sempre polemista - no bom sentido do termo. Não gostava de balbúrdia, necessitava do silêncio seu para está bem consigo. Não gostava de conviver com aqueles que lhe dessem um retorno substancial à sua existência. Certa vez, quando convidada para um ciclo de palestras numa universidade chegou mesmo a declarar: "chateia-me conviver com jovens durante três semanas; a juventude é uma gracinha…

Karen Blixen

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O sobrenome Blixen incorporou do seu marido, o barão sueco Bror von Blixen-Finecke, quando se casou com ele em 1914. Este ano marca a vida de Karen Dinesen - seu nome antes do casamento - porque é daí que ela parte com o barão, ainda um primo seu afastado, para ir morar no Quênia, África, onde cuidavam de uma fazenda de café. Antes, Karen já perdera o seu pai, que, vítima de sífilis, cometeu suicídio, quando ela ainda tinha dois anos. Ingeborg Westenholz, sua mãe, ficou sozinha, com cinco filhos por criar.

Fez sua formação escolar em boas escolas suíças, graças a extensa ajuda que sua mãe obteve dos familiares. A família era, para todos os efeitos, abastada. A vida em África foi-lhe importante porque é do cenário em que viveu que Karen extrai matéria para a sua mais famosa obra, traduzida no Brasil como A fazenda africana e publicado em 1937 - livro autobiográfico, mas com caráter bem mais "etnográfico" do que melodramático: o livro tem como ponto de partida sua vida amoros…