Flannery O'Connor



Flannery O'Connor foi "apenas uma contadora de histórias", segundo suas próprias palavras. Mas ela não era apenas uma contadora de histórias. Em sua prosa, Flannery O'Connor encontrou, na verdade buscou, resgatar aos olhos de seus leitores, o estranhamento com que a Graça, o Mal e o Pecado Original, atuam neste vale de lágrimas. Esse estranhamento ocorre em nossas vidas quando o grotesco, a violência ou nossa incapacidade de reconhecermos que há uma inexpugnável diferença entre o que crermos ser o certo, e o que é certo perante os olhos de Deus.

Este é o chamamento, o furor violento que Flannery usa tão bem em suas histórias para fazer-nos ver o bizarro que nos cerca, e assim, aceitarmos melhor nossa parcela nessa realidade criada para nós.

Nascida no sul dos Estados Unidos (cujo imaginário coletivo remonta racismo, intolerância, lugar onde a odiosa América branca e conservadora cria e recria seus pecados ), filha de pais católicos, apaixonada por pássaros, especialmente o pavão (pássaro que é simbolo do Cristo na iconografia cristã) e "abençoada" com uma doença incurável e que viria a matá-la precocemente, O'Connor vai usar desses elementos para criar uma obra que por muito tempo foi considerada "menor". Mas que com o passar dos anos, mostrou-se mais consistente, com uma visão penetrante da alma humana, que muitos de seus pares contemporâneos não atingiram. E mesmo hoje em dia, apenas consigo pensar em Cormac McCarthy como seu herdeiro no uso do grotesco e da violência. Não menos relevante é a presença da compaixão e da Graça em ambos.

Mas muitos leitores podem cair em uma armadilha ao ler as obras da escritora georgiana, apegando-se apenas ao grotesco ou à violência que ela tão bem descreve, ou ainda, procurando denuncias sociais ou raciais em seus escritos. Não são essas as motivações da escritora, ela não rebaixa o ato de escrever, coisa tão comum e esperada dos escritores neste nosso século de poucas luzes e ainda mais nesse nosso tão inculto Brasil.

... desde cedo teve a presença marcante da morte em sua vida. Seu pai, morto quando ela ainda era adolescente, e a descoberta de que carregava a mesma moléstia quando contava seus vinte e poucos anos, fez com que ela buscasse em sua formação, respostas para a condição humana. Isto é, a certeza inescapável de nossa mortalidade.

Mas ao contrário da covardia existencialista, ou do niilismo burro, Flannery buscou sempre resgatar a nossa condição maior de filhos de Deus. Necessário dizer que essa condição não é facilitadora, atenuante ou leve, mas muito ao contrário, dura, cheia de dor e sangue, mas capaz de reconhecer nas penas coloridas de um pavão, a promessa divina de redenção.

* Fragmentos da resenha ao livro Flannery - A life of Flannery O'Connor, do autor Brad Gooch. O texto é de Dionisius Amendola e foi publicado na Revista Dicta & Contradicta, volume 4.

Comentários

André Quirino disse…
Ao lado de Flannery O’Connor, François Mauriac, Paul Claudel e Walker Percy, o francês Georges Bernanos figura entre os grandes escritores cristãos do século XX, ao ponto de o grande teólogo alemão Hans Urs von Balthasar ter-lhe dedicado um livro inteiro. Sua obra tem sido publicada no Brasil pela É Realizações Editora, e agora sua passagem pelo país é narrada ao público local. O estudo de Sébastien Lapaque “Sob o Sol do Exílio: Georges Bernanos no Brasil (1938-1945)” acaba de ser publicado, trazendo à luz a visita de Bernanos a várias cidade do Rio de Janeiro e Minas Gerais, sua estadia no sítio Cruz das Almas, sua revolta contra a mediocridade dos intelectuais e a ascensão do totalitarismo, sua amizade com pensadores brasileiros e a visita que Stefan Zweig lhe fez à véspera de se suicidar.

Matérias na Folha de S. Paulo a propósito do lançamento do livro: http://goo.gl/O8iFve e http://goo.gl/ymS4lL
Para ler algumas páginas de “Sob o Sol do Exílio”: http://goo.gl/6hAEOM

Confira também:
Diálogos das Carmelitas: http://goo.gl/Yy3ir3
Joana, Relapsa e Santa: http://goo.gl/CAzTTk
Um Sonho Ruim: http://goo.gl/Kd091z
Diário de um Pároco de Aldeia: http://goo.gl/ISErLc
Sob o Sol de Satã: http://goo.gl/qo18Uu
Nova História de Mouchette: http://goo.gl/BjXsgm

ANDRÉ GOMES QUIRINO
mkt1@erealizacoes.com.br
(11) 5572-5363 (r. 230)

Postagens mais visitadas deste blog

A religiosidade clandestina de Hermann Hesse

Água viva, de Clarice Lispector

Pablo Neruda: o que não dá mais para ocultar

Apontamentos sobre alguns textos curtos de Tolstói

Boletim Letras 360º #231

Quando Borges era Giorgie

Salinger, um grupo de psicopatas e os do MKUltra

A filha perdida, de Elena Ferrante

Gostamos de causar danos (com o grande romance estadunidense)

Jane Austen: casamento e dinheiro