Os fragmentos de uma geometria a Leontino Filho

Por Pedro Fernandes



Quantas faces comporta um poeta? Drummond em seu “Poema de sete faces” deixou, entrever, pelo signo que nomeia o próprio poema, que seriam sete. Fernando Pessoa, entretanto, rompe as contas e se fez “em mais pedaços do que havia loiça no vaso”. Dessa pergunta, instituo outra. Em que consiste a arte poética? Jorge Luis Borges em “Arte poética” “enumera” alguns dos fazeres. Murilo Mendes põe todas as enumerações possíveis em três versos: “Os diversos personagens que encerrei/ Deslocam-se uns dos outros, fundam uma comunidade/ Que eu presido ora triste ora alegre.” E Mia Couto, numa de suas avalanches poéticas, completa: “e eu invento o que escrevo/ escrevendo para me inventar”.

Se fôssemos buscar uma face que definisse Leontino Filho, diríamos, que todas as faces possíveis começa e finda somente numa: a de ser poeta. E isso não o faz, em momento algum, inferior à ordem dos que se multiplicaram para ser-se. Sua unidade o faz tão plural quanto. E me refiro a plural não quanto aos estágios poéticos que constituem qualquer poeta, me refiro a plural na ordem da escritura e na ordem dos papeis sociais. Traduzindo-me: mesmo sabendo que o poeta Leontino Filho tenha incursões por territórios da prosa, por exemplo, mesmo sabendo que o poeta Leontino Filho desempenhe a profissão de professor universitário... Leontino Filho é sobretudo poeta. E poeta não apenas porque é dado a escrever poesia, nem porque é dado a bruxo na alquimia dos signos linguísticos, na reengrenagem da ordem da palavra, mas porque é dado a viver poesia. A poesia não se finda no fazer. Digo isso porque aos que o conhecem de vista poderão dizer, Curiosa personagem, este Leontino; aliás, foi isso mesmo o que eu disse de mim para mim mesmo quando o conheci no primeiro dia de aula em Teoria da Literatura na minha Graduação em Letras. Mas, aos que o conhecem pessoalmente, como eu passei a conhecê-lo, aliás único da espécie dos poetas com o qual tenho mesmo proximidade, enxergarão nele, a imagem que passei a enxergar: a de poeta. Não porque ande a soltar piparotes de versos aos quatro ventos, nem porque ande encantado com a natureza, brincando de ser-se noutro mundo. Não. Essa imagem de poeta além de ser clichê e tosca, não é a de Leontino Filho e nem a de nenhum verdadeiro poeta. É, sim, o fato de ter uma opinião formada sobre o mundo; é, sim, o fato de ter zelo pelo seu lugar no mundo, que o faz ser o poeta para além de escrever poesia. Aqui chegando, responderia já a pergunta segunda que fiz no começo desse texto: Em que consiste a arte poética? A arte poética consiste em viver.

Tem uma leva de escritos: citáveis são Imagens, de 1984, e Cidade Íntima, de 1988. Cito estes porque foram estes os livros seus que li e que não meço palavras para dizer ser estes livros duas armaduras titânicas do gênero na literatura potiguar. Dois livros que não traem a poesia, mas re-engendra a ordem da palavra, esta que parece às vias de extinção, se tomarmos como nota que o que temos no estado é “algum” corpo de poetas que andam saltitando páginas e telas da mídia com um fazer poético duvidoso.

Não tão recente, em 2008, eis que aparece Leontino ensaísta. A geometria do fragmento é o seu último título lançado. Singular no nome. Singular na ideia. E mais singular ainda no propósito. Este é um livro em que Leontino se mete um pouco com toda a gente que compõe suas leituras; gente, na maioria, desconhecida dos róis apresentados de lés a lés por aí: Jorge Tufic, Edson Guedes de Morais, Ascendino Leite, R. Roldan-Roldan, Demétrio Vieira Diniz, Tanussi Cardoso, Francisco Miguel de Moura, Z. A. Feitosa, entre outros. Chamando esse nomes para si, Leontino não pratica a arte de medir palavras, mas reelabora a palavra formatando universos no papel e não o faz senão com um propósito – o de dar corda a esses universos. O zelo com que ele cuida da palavra ao ponto de fazer por em ordem tais universos, faz da sua crítica uma poética que contorna, aos modos da ensaística, um apólogo outro do ser-poeta.

A geometria do fragmento recupera a ordem da leitura literária pelo seu próprio poder sem se deixar guiar pela ordem das teorias que vão enfaixando textos, modelando opiniões, a ponto de o espírito crítico se esvair ou cair num abismo e não aparecer sequer uma nesga de si. Tampouco é falar no vazio insistindo em arrancar dos canonizados a última gota de sentido que ainda possa existir. Se o poeta é aquele que finge, aqui o poeta é aquele que, fingindo ou não, se mostra – não tem receio do que diz e nesta delicatesse de vozes que vão sendo orquestradas, o ensaísta do poeta emerge e não deixa margem para dúvidas como quando define a poética de um Raimundo Herculano Moura, por exemplo, em “Saudade: um rio que corre na retina do tempo”, ou quando se põe a compor uma cartografia da cena literária de R. Roldan-Roldan a partir de seu Inidentidade em “Abismos de espelhos”, passando por Caminho insólito caminho em “No caminho, a metáfora do gozo”, Boa viagem, Sheherazade ou a balada dos malditos, em “Na finitude das margens: a fulgurante epifania de R. Roldan-Roldan”, As loucas gaivotas morrem na fronteira ou o trem do delírio, em “As dimensões oníricas de um viajante: o ofício do imaginário”, e Literata ou o doce sorriso do macho satisfeito em “A caligrafia do êxtase e os arquétipos de uma viagem”, e findando por Matriochka em “Matriochka: o embevecido mistério do pesamento”.

Ao todo, dezenove posições acerca sobretudo da Literatura. Eu diria que nestes breves ensaios escritos por Leontino, ele continua fazendo, o que o poeta faz, testes sobre a palavra – signo de ordem-desordem e experiência do mundo como tal – revendo, é claro, a palavra numa distância que lhe permita estruturar o corpo do ensaio, mas sem perder-se da forma poética – que pelo andar das coisas, talvez o faça ir ainda mais longe que na ordem do poema, nesse trevelling de signos.

* Texto publicado no Caderno Domingo do Jornal De Fato,  no dia 14 de fevereiro de 2011, p.14.

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