Miacontear - O adiado avô

Por Pedro Fernandes

 "Homem velho com a cabeça entre as mãos". Van Gogh


" - Você não entende, mulher, mas os netos foram inventados para, mais uma vez, nos roubarem a regalia de sermos nós.

E ainda mais explicou: primeiro, não fomos nós porque éramos filhos. Depois, adiámos o ser porque fomos pais. Agora, querem-nos substituir pelo sermos avós." ¹
Esta é fala de Zedmundo, Zedmundo Constantino Constante, pai de Glória que acaba de ter um filho. Patriarca da família, Zedmundo se recusa a ir ao hospital conhecer o neto e se recusa a tê-lo dentro de casa. Novamente o espaço habitado em O avô adiado é o espaço da família marcado pela presença ativa do masculino que plenos poderes sobre a mulher. O silenciamento do feminino é expresso em dois momentos distintos nessa narrativa. Primeiro, quando da recusa de Dona Amadalena, mãe de Glória, ao pedido intercessão a Zedmundo, para que ele se convença em dar vistas ao neto. Segundo, pelo estágio constante de retomada por parte do narrador acerca da silêncio de Amadalena - "a mãe era muda, a sua voz esquecera de nascer".

Esse conto é o primeiro desse livro que toca na questão da colonização. Ela vem atravessada na história tantas vezes repetida de Zedmundo que rememora a relação de silenciamento e submissão padecida pelo próprio com o patrão português. É por através desse rememorar de Zedmundo que ficamos a entender como é o funcionamento do espaço doméstico. Em casa Zedmundo preza a mesma ordem que, no espaço externo, seu patrão lhe prezava. "- Eu tão calado que parecia vossa mãe, Dona Amadalena, com todo respeito..."

A castração da fala faz Dona Amadalena subverter a ordem ou o código do silenciamento por uma linguagem de resmungos, de suspiros. É uma palavra outra que vem pelas frestas do silêncio e converte-se em língua autônoma, que fere a ordem do código masculino. Esse estágio de resmungos será suficiente para ferventar-se pelos gases de saturação das mesmas histórias de Zedmundo e da sua indiferença para com o neto e tudo se tornar, enfim, no pedido de que ele desse atenção ao neto e mesmo a ameaça de sair de casa, caso a situação não fosse revertida. É aí que se dá o diálogo que epigrafa este post. É aí que nem Zedmundo arreda o pé de casa, nem Amadalena. É aí que se configura uma explicação para a insistência de negar o neto. Como Amadalena que não sai casa por medo e submissão ao marido, Zedmundo não aceita o neto por medo de aceitar própria existência como fato finito. Ou ainda por uma necessidade de preservar seu estado recente de libertação.

Daí para adiante a história caminha para um estágio de tragicidade: a família de Glória se muda para a capital, Amadalena volta ao seu silêncio. Em seguida, o genro morre, Glória, devido ao ocorrido entra numa depressão profunda que lhe leva à loucura e a impossibilidade de cuidar do neto. Resultado: o neto, tendo avós, voltará ao convívio da casa. Ironia do destino ou não. Inaugura-se aqui um percurso silencioso de descida da personagem Zedmundo, que atormentada por aquilo que ela mais tenta se livrar, sai de casa; esse percurso se dá por debaixo da próprio cerzir da narrativa. Seu retorno à casa e entregar-se ao choro, marca, primeiro, a ideia do quão ligada a esse espaço está a personagem que fora dele a vida não lhe constitui sentido, e, segundo, a ideia de arrependimento pela incapacidade de lidar, ela própria, com as linhas do tempo. O encontro, enfim, com o neto, como se "ambos fossem recém-nascidos", marca esse fundir-se do tempo ou a aceitação por parte de Zedmundo que a existência anda.
"'Meu Zedmundo: durma comprido. E trate desse menino, enquanto eu vou à cidade.'
Entre rabiscos, emendas e gatafunhos, o bilhete era mais de ser adivinhado que lido. Dizia que meu pai ainda estava em tempo de ser filho. Culpa era dela, que ela já se tinha esquecido: afinal, meu pai nunca antes fora filho de ninguém. Por isso, não sabia ser avô. Mas agora, ele podia, sem medo, voltar a ser seu filho." ²


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¹ COUTO, Mia. O fio das missangas. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p.35.
² idem, p.37.

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