Eu sou o número quatro, de D. J. Caruso

Por Pedro Fernandes



Voltar ao baú de coisas é coisa que faz todo arte. Aliás, é desse constante voltar que se constrói as grandes novidades e a arte se recicla. Agora, Hollywood volta para as histórias de alienígenas e quer, depois do clássico de Spielberg reinventar o rol delas - não deixando de fora, é claro, a parafernália tecnológica que o cinema foi incorporando desde a época em que E. T. foi lançado. Quem se dispõe a façanha é o diretor D. J. Caruso, com o seu Eu sou número quatro, tradução ao pé da letra para o título em inglês e que o Brasil adotou para o filme. Aliado ao tema dos alien Caruso trouxe ainda - nascendo das cinzas - o nascer do herói, dos superpoderes desse herói e da relação conturbada entre o herói e esse dom. E lógico - como estamos numa daquelas historinhas para nanar adolescentes - não pode faltar uma pitada de romance, coletada do sucesso teen das histórias românticas de vampiros.

Pareceu complicado toda essa salada? Pois não é. Smith é um disfarce do número Quatro entre os humanos, que está quase sempre acompanhado de seu protetor Henri. Os três primeiros membros de sua raça foram assassinados e ele é o próximo da lista. Enquanto se esconde na tranquila cidade Paradise e vai descobrindo seus poderes, conhece a estudante Sarah pela qual se apaixona. Velhos amores à primeira vista. Fato é que essa tranquilidade dura pouco. Logo Smith, digo, o Quatro é localizado pelos inimigos. Daí incia-se uma perseguição que o Quatro só vence porque aparece-lhe a número Seis - que além de encontrá-lo para salvá-lo, salvar-se e salvar sua espécie inaugura um triângulo amoroso mal feito.

O fato é que, isso tenho percebido nas produções recentes, é que seus diretores promovem uma salada de temas e não consegue, no fim de tudo, dá contas do que a princípio parece se propor. Me explico. Por exemplo, apesar de haver muitas possibilidades de desenvolvimento em torno do tema de alienígenas, Eu sou o número Quatro mal chega a tocar a superfície delas. Outra. O aprendizado da personagem principal com seus superpoderes é dado numa versão para download cerebral. Diferentemente de super heróis como o Homem Aranha, que leva um filme inteiro nos trejeitos e desajeitos em lidar com a situação dos superpoderes, o número Quatro não se torna dono de seus poderes do dia para noite, ou melhor, de um quadro a outro da película. Dois fatores que já castigam a possibilidade de brilho do filme. E tem mais: os efeitos, as lutas, tudo vai muito bem até quando não entra em cena a briga de "pokémons", digo, de mascotes dos aliens - uma criatura sinistra que se alimenta de carne humana - e de Smith - um cãozinho que é disfarce de uma criatura de mesmo porte da dos alienígenas, mas que faz o papel da docilidade em pessoa, digo, em animal.

O fato é que a trama de D. J. Caruso se presta ao que cinema hoje tem se tornado. Um entretenimento que você decide tê-lo na fila de comprar ingressos pro cinema, ou de passagem pela frente do cinema numa tarde sem ter o que fazer. E, justo por isso, vai para o rol de alguns dos filmes não brilhantes mas que carecem de um comentário.

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