Relembrar o dia um ano depois




Depois de sua morte, um escritor passa a ter, obrigatoriamente duas datas pelas quais se miram seus leitores para lembrá-lo - a de seu nascimento e a de sua morte. Há casos, é verdade, que não se lembram nem de uma e nem de outra e são muitos os escritores que caem no limbo do esquecimento. Mas, como saramaguiano que me defino, não pertenço a esse clã dos esquecidos, apesar de não ser nenhum pouco dado com as datas. E é fato que neste 18 de junho fecha-se um ano em que os leitores de José Saramago ficaram tristes. "O tempo voa!" Disse de mim para mim quando me coloquei à frente desse dia.

A notícia da morte de José Saramago me chegou naquela manhã por uma ligação telefônica no momento em que eu me preparava para ministrar uma aula no meu estágio de docência durante o Mestrado. Se nenhuma aula sai conforme o planejado aquela aula teve tudo para que destoasse a léguas. Quando desliguei o telefone e olhei para Janaina, minha amiga saramaguiana, que comigo estava na mesma situação de estágio, disse, "Você não sabe o que aconteceu...", e contei que Saramago havia morrido. Ficamos os dois de choro contido, bem sei. E tudo só veio fazer sentido mesmo quando, à noite, cheguei em casa, abri o computador e dei a ler as notícias nos diversos sites de jornais, revistas, blogs, etc. sobre o ocorrido. No mesmo instante a reação que tive foi a de despir esse blog das tradicionais cores azul, amarelo e branco e deixá-lo escuro até quando da cerimônia fúnebre em Lisboa.

Se estava até ali trabalhando numa dissertação sobre José Saramago, minha mente abriu-se para a criação de uma série de outras ideias. E todas elas vingaram: Um caderno para Saramago foi a primeira delas. Um blog-site sobre o escritor, reunindo conteúdos e informações dispersos na web acerca do escritor, posto no ar em menos de 90 dias depois. Diagnósticos do presente em Chico Buarque, José Saramago e Jorge Reis-Sá, um curso que foi por mim ministrado durante o I Colóquio Nacional de Estudos Linguísticos e Literários. E, depois, Um universo de José Saramago - paisagens. Paralelo a isso tudo pensei em organizar um número especial do Caderno-revista 7faces, do qual sou editor.  O dia de hoje deveria ser a data na qual essa edição viria a lume, mas por insistência minha de que não seria suficiente um lançamento virtual - o número especial é eletrônico - resolvi unir forças para que ocorresse também o lançamento físico da ideia. E espero ser este dia um dia em eu possa recordar mais uma vez aos presentes todo esse itinerário, porque se há algo que me apetece falar, está aí uma pista: José Saramago e sua obra.

Já disseram outros leitores de Saramago que depois de o lê fica difícil entrar numa livraria e encontrar outro escritor que o arrebate tanto quanto o Prêmio Nobel. E é verdade. E isso ocorre porque Saramago, antes de ser um escritor e mentor da arte literária, foi também um grande interventor. Quis ser um apartador de discursos e fundador de outras maneiras de olhar o mundo e as criações humanas. Esse diferencial fez de Saramago mais que escritor, o fez porta-voz de muitos que não são ouvidos, seja porque o eco de sua voz não tem o alcance que a sua tinha, seja porque ainda estavam presos ao chão da subserviência. Se um dos papeis da Literatura consiste em reinstalar o empírico para que possamos vê-lo com outros olhos ou por outras formas, somos cientes de que Saramago executou plenamente esse papel. O papel de desassossegar o leitor. Tirá-lo da sua inércia. E isso vem impresso no seu próprio gesto de reinventar a composição da narrativa, despindo-a da pontuação e levando a escrita pela mesma correnteza do tom da oralidade. E é por esse legado do desassossego que sua obra deve sempre ser lida - quantas vezes for necessário - e discutida e, principalmente, lembrada.



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