Super 8, de J. J. Abrams

Por Pedro Fernandes



Fui ao cinema embalado por algumas opiniões sobre esse filme que tem o diretor do seriado Lost - o qual acompanhei por algumas temporadas - e o já famoso nome de Spielberg. E as opiniões se confirmaram. Super 8 é sim uma agradável surpresa aos olhos do telespectador. Apesar de está na produção do filme, assistida metade da trama ou até menos que isso, o telespectador irá perceber que está diante de um discípulo do diretor de E.T. ou mesmo diante de uma homenagem mais que justa àquele que trouxe para as telas, com uma produção diversa, uma forma nova de produção cinematográfica cujo tema seja extraterrestres; sabemos que depois de E.T. Spielberg compôs também do gênero Contatos imediatos do terceiro grau, outra obra que, se não alcança o ápice do seu sucesso primeiro, permanece como uma das suas mais importantes produções.

Isso ocorre porque Super 8 aparece empapado das referências de Steven Spielberg. Enredo, fotografia, trilha sonora, enfim, quase tudo remete aos filmes de 30 anos atrás. Quase tudo porque a ideia do suspense parece muito Lost em todo andamento da narrativa. O filme tem sua beleza porque, mesmo não inovando cinematograficamente, recupera para o centro das discussões temas até então foragidos das produções correntes, como a amizade e a cumplicidade, a inteligência e a sagacidade como elementos saudáveis e produtivos, seja pelo ponto de ligação entre as personagens, seja pela sede - hoje tanto perdida - pela novidade e pela inovação. 

O filme é mesmo retrô. No verão de 1979, um grupo de amigos da pequena Lillian, está disposto a fugindo de todas as contravenções e rompendo seus próprios esforços, quer fazer um filme sobre zumbis. Durante a gravação de uma das cenas, o grupo presencia um grave acidente de trem. Pouco depois, desaparecimentos e eventos inexplicáveis começam a acontecer na cidade. Dá-se início a uma busca pela verdade. Até chegar um momento em que o protagonista defronta-se com ela. Nas mãos do monstro alienígena, o menino começa a falar. É o momento ápice do filme. O momento em que esse menino - que perdera a mãe ainda muito jovem e que se vê no centro de uma intriga entre famílias (da sua com a da seu primeiro amor adolescente) - diz aquilo tudo aquilo que não conseguiu dizer ao próprio pai ou mesmo para a garota nos tantos encontros que vão tendo ao longo do filme. E na sua fala com esse outro terrível, é como se ele estivesse falando consigo, como se os monstros que precisa dominar fossem aqueles monstros internos. Tudo o que diz sobre solidão, perda, superação, refere-se às próprias dores. Aqui fica outra grandeza do filme. Estamos diante de um enredo com crianças que vivenciam situações complexas que não os reduzem a infantilização mas também não os colocam como super-heróis. O enredo toma cuidado de preservar a natureza própria da faixa etária sobre a qual decide ter como universo para sua composição.

Mas quero voltar aos ares nostálgicos que sustém essa produção. Não são apenas referências aos sucessos daquela época apresentados em aspectos técnicos como fotografia, montagem e trilha sonora que foram aí perfeitamente mimetizados, mas é a forma como o enredo é construído e o desenvolvimento o que mais dá alma ao filme e nos faz simpatizar pela sua história.

Fora isso, é possível ver muito da formação de muitos dos grandes cineastas como Spielberg - geração que de posse de uma super 8, conseguiam, somente à base de criatividade, sair pelas ruas à cata de cenas e depois montagem de suas próprias produções caseiras. E isso fica registrado na construção do enredo interno ao enredo principal. Opera aqui uma metamorfose de linguagens que ao suster o filme constrói-se como o próprio filme.

Por fim, fiquem sabendo Super 8 supera-se pela forma e pelo conceito de fazer cinema. Há somente que se despir e deixar-se vestir pelo filme. O resto você conta depois.


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