Miacontear - O dono do cão do homem



Antes de adentrar na narrativa desse conto, temos, obrigatoriamente, de reparar o jogo semântico elaborado a partir de seu título. O substantivo 'cão' adquire nesse "O dono do cão do homem" uma dupla via de sentido no minímo. Ao mesmo tempo em que pode se referir ao cão, o animal domesticado pelo homem também pode se referir a uma 'vida díficil' (vida de cão) cuja posição do cão é a de domesticador do homem. Isto é, ao passo que sugere ser o cão aquele que tem um dono (o homem) sugere ser o homem aquele que tem um dono (o cão). E esse jogo de sentido dará conta do que propõe a narrativa.

Observando certamente a proliferação de mimos do homem para com os cães, mal notadamente do século: os cães como elemento que suprem a carência afetiva da qual padece o homem contemporâneo, cada vez mais isolado, vivendo mundos fechados à convivência em grupo, Mia Couto elabora esse conto em que a posição de domesticação do animal é invertida e quem agora é domesticado é o homem em relação às criaturas de quatro patas. Bonifácio é o nome do cão em questão. Caricato nome, "de tão humano, quase me humilha." Bonifácio. Nome que reitera a leva de bichos que circulam por aí com nomes tão ou até mais humanos que este.

"Aos fins da tarde, eu o levava a passear. Isto é: ele me arrastava na trela. Bonifácio é que escolhia os atalhos, as paragens, a velocidade. E houve vezes que, para não dar inconveniências, eu rebaixei a ponto de recolher o fedorento cocó. Prestei tal deferência aos meus próprios filhos? Depois de toda esta mordomia, as pessoas atentavam apenas nele:

- Belo exemplar, lindo bicho - diziam.

Quando me notavam era por acidente e acréscimo. Eu, humildemente eu, na outra extremidade da trela. "¹

O que vamos assistindo no desenvolver da narrativa é um constante processo de animalização do homem e humanização do cachorro, a ponto de o dono de Bonifácio largar tudo o que tinha para ir viver numa loca como cão e Bonifácio ter para si todas as modormias do dono, "tudo, vizinhos, amigos, os gastos e os ganhos de uma vida inteira". Esse processo de animalização do homem é uma crítica ácida aos desafetos humanos na sociedade contemporânea. Aos bichos é dada uma atenção e supervalorização que extrapola os limites do cuidado e imerge o homem num isolamento ainda maior. Ao transferir ao bicho valores que não são partilhados no seu mundo, o homem se isola da convivência de outras pessoas, perde, logo, seus referenciais. Exemplo está no fato de as tarefas desempenhadas para com o seu cão passarem distante dos cuidados que tem/teve para como o próprio filho.

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¹ COUTO, Mia. O fio da missangas. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p.104.

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