História do cerco de Lisboa, de José Saramago


Por Pedro Fernandes

Edição de bolso recém publicada pela Companhia das Letras para História do cerco de Lisboa


De braços levantados, com a corda que os ajudara a descer posta em redor do pescoço como sinal de sujeição e obediência, caminharam para o arraial, ao mesmo tempo que davam altas vozes, Baptismo, baptismo, acreditando na virtude salvadora duma palavra que até aí, firmes na sua fé, haviam detestado. De longe, vendo aqueles mouros rendidos, julgaram os portugueses que viessem negociar a própria rendição da cidade, embora lhes parecesse raro que não tivessem aberto as portas para eles saírem num obedecido ao protocolo militar prescrito para estas situações, e sobretudo, aproximando-se mais os supostos emissários, tornava-se notório, pelo esfarrapado e sujidade das roupas, que não se tratava de gente principal. Mas quando finalmente foi compreendido o que eles pretendiam, não tem descrição o furor, a sanha dementada dos soldados, baste dizer que em línguas, narizes e orelhas cortadas foi ali um açougue, e, como se tanto fosse nada, com golpes, pancadas e insultos os fizeram tornar aos muros, alguns, quem sabe, esperando sem esperar um impossível perdão daqueles a quem haviam atraiçoado, mas foi um triste caso, que todos acabaram ali mortos, apedrejados e crivados de setas pelos próprios irmãos. Depois desta trafica aventura caiu sobre a cidade um silêncio pesado, como se um luto mais profundo tivessem de purgar, talvez o duma religião ofendida, talvez o insuportável remorso dos actos fraticidas, e foi então que, rompendo as últimas barreiras da dignidade e do recato, a fome se mostrou na cidade em sua mais obscena expressão, que menor obscenidade é a exibição dos comportamentos íntimos do corpo do que ver extinguir-s esse corpo à míngua de alimento sob o indiferente e irónico olhar de deuses que, tendo deixado de guerrear uns contra os outros por serem imortais, se distraem do aborrecimento eterno aplaudindo os que ganham e os que perdem, uns porque mataram, outros porque morreram. Pela ordem inversa das idades, apagavam-se as vidas como candeias exauridas, primeiro as crianças de colo que não encontravam uma só gota de leite nos peitos murchos das mães e se desfaziam em podridões interiores causadas por alimentos impróprios que em último recurso as queriam fazer ingerir, depois as mais crescidas, a quem, para sobreviver, não bastava o que os adultos tiravam à boca, e destes mais as mulheres do que os homens, que elas privavam-se para que eles pudessem levar uma última energia à defesa dos muros, ainda assim os velhos eram os que melhor resistiam, talvez graças à pouca exigência dos corpos que por si mesmos se dispunham a entrar leves na morte, para não sobrecarregarem a barca em que atravessarão o último rio. Já então tinham desaparecido os gatos e cães, as ratazanas eram perseguidas até às trevas fétidas onde as ervas até às raízes, a lembrança de uma ceia de cão ou de gato equivalia ao sonho duma era de abundância, quando ainda as pessoas se podiam oferecer o luxo de atirar fora os ossos mal esburgados. Nos monturos, agora, buscavam-se restos que dessem para aproveitamento imediato ou para transformar, por qualquer meio, em comida, e o ardor da busca era tal que os quase nada encontravam o que pudesse aproveitar à sua indiscriminada voracidade. Lisboa gemia de miséria, e era uma ironia grotesca e terrível deverem os mouros celebrar o seu ramadão quando a fome tornara o jejum impossível.

*
A extensa cena acima é de História do cerco de Lisboa, de José Saramago. O cenário apocalíptico absorve o leitor para uma humanidade em estágio terminal. Não sendo esse o primeiro, nem o último. Já disseram mesmo que a história se é feita disso: de atos apocalípticos ensaiados pelo próprio homem, que sente uma necessidade, de por ironia grotesca – para beneficiar-se dos termos saramaguianos – testar seus próprios limites e não raras vezes pela pior via possível.

A história da humanidade é esse mar de sangue, de forças exauridas a todo custo por coisa alguma, é a intolerância. Como pano de fundo, mas não apenas figurativo e sim diretamente ligado aos fatos está esse aparelho que convencionamos chamar de religião. Já outras vezes Saramago tem nos alertado sobre os seus males e seu perigo para a existência humana. Se por um lado a religião tem o utópico interesse de conforto do espírito humano – esse que é desassossego constante – por outro, a religião este como pivô ou epicentro das maiores tragédias da humanidade. Funciona, pois esse aparelho ideológico, como uma bomba relógio. 

No caso de História do cerco de Lisboa, o fato histórico em questão é esse que dá nome ao romance. Foi o período em que Lisboa esteve sob o domínio muçulmano. E se a história oficial diz que foram os próprios mouros os que ajudaram Lisboa se libertar do cerco, Saramago vem por em suspense essa tese e mostrar que a coisa não foi tão romântica assim. Há um emaranhado de fatos por explorar e isso vai sendo feito ao longo desse romance através da figura do revisor Raimundo, que ao se deparar com o livro “História do cerco de Lisboa” para uma revisão, sente-se inclinado a por um categórico “não” à afirmativa que sustentava o fato oficial.

Não os mouros não ajudaram Lisboa a libertar-se do domínio muçulmano. O “não” questionador, levará o revisor, por incentivo da sua chefe, a escrever um romance, no qual a tese contestada pela história oficial se confirme. É um romance, logo, de reconhecimento da escrita e de entendimento da palavra como instância enunciativa e fundadora da realidade. O “não” categórico que vai tomando corpo no correr do romance aponta para o próprio fazer literário do romancista Saramago. Tem ele a função de questionar, de por em xeque, ou como tanto o escritor português disse, desassossegar. Instaurar o terreno outro. O terreno da possibilidade.

O resultado é isso que se apresenta. Um romance sobre um romance. História do cerco de Lisboa é por natureza, metalinguístico. É romance dobrado sobre si, percorrendo seus próprios labirintos para ver-se como materialidade palpável. Coroado por passagens de extrema e refinada poesia, assim como são todos os romances saramaguianos, esse romance diz da condição humana, assim também como todos os romances saramaguianos. Reveste-se do poder inquisitório da palavra questionando a própria palavra e firma-se como um desejo de entender as lacunas da história oficial e os modos de verdade instituídos pelo seu discurso.

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