Miacontear - Uma questão de honra



Quintério Luca e Esmerardo Fabião são dois velhos amigos de vida, de bar e de jogo. "Existiam juntos, como o pescoço e a dobra do lençol." Na grande parte das vezes e ainda mais com o avançar da idade, as partidas de dama se estendiam por semanas e numa delas Quintério dá contas de que o jogo havia sido mexido. Alguém tinha feito isso e sendo o jogo um elo construído secretamente entre os dois o primeiro suspeito que vem à mente de Luca é de que Esmerardo foi o feitor da desonra.

Desonra que será o elemento mais que suficiente para abalar o rumo da relação entre os dois. Não convencido da negação de Esmerardo, ele e Quintério vão à consulta do juiz da cidade. Num diálogo deslocado em que paira um jogo de expressões alheias aos dois velhos, a dúvida, ao invés de resolvida, permanece, o que faz Quintério voltar ao juiz. Na certeza de matar o amigo pelo golpe de honra o juiz nega-lhe proteção o que faz Quintério avançar para, antes de matar Esmerardo, matá-lo. Num reflexo, o segurança do juiz dispara antes de Quintério e o velho cai morto.

O conto recupera a ideia de lealdade, companheirismo e amizade cuja sustentação se dá por uma única via - a da confiança. Valor este que remonta às antigas relações humanas e hoje já totalmente degregado. O desfecho trágico da história reitera esse processo de degradação da honra enquanto valor humano solapada justamente por um elemento estranho ao contexto da tradição africana, que é a imagem de um juiz. Moldado aos trâmites ocidentais que difere das leis próprias construídas à base da honra e do respeito mútuo, o juiz, que pode ser lido como um substituto da antiga imagem do chefe da tribo, não possui a capacidade necessária de resolução dos conflitos fruto das relações humanas porque se regra por leis e valores que diferem dos valores daquele povo. Nesse ínterim, estamos novamente colocados diante de 'choque' de culturas, justificado este pelo distanciamento linguístico entre o juiz e as personagens Quintério e Esmerardo.


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