A primeira noite de um homem, de Mike Nichols




Retrato da mudança de valores integra fase de renovação dos temas nas mãos de jovens diretores

O recém-formado Benjamin Braddock chega ao aeroporto, voltando para a casa dos pais após concluir a faculdade, ao som de The Sounds of Silence, da dupla Simon & Garfunkel. A abertura de A primeira noite de um homem marca duas graduações importantes que fazem referência ao título original. A primeira é a do próprio personagem Benjamin, interpretado pelo jovem Dustin Hoffman. E não apenas em termos escolares, mas também morais. Agora adulto, ele consegue enxergar a futilidade dos pais materialistas e vazios, vê que a sua própria geração está perdida com as transformações sociais e começa uma relação com uma mulher muito mais velha, esposa do sócio de seu pai, e mãe da garota por quem ele se apaixonará mais à frente.

Além de Benjamin, o jovem cinema americano estava se graduando. A partir de obras como Bonnie e Clyde (1967), Sem destino (1969), Perdidos na noite (1969) e M.A.S.H. (1970), Hollywood abandonava a leveza de sua era de ouro para enfrentar temas mais pesados - sexo, violência, drogas, o caos urbano, política e novos valores. A primeira noite de um homem mergulha no embate entre duas gerações distintas e na revolução sexual da década de 1960. O filme causou polêmica pelas cenas de nudez e sexo e pela relação entre uma mulher de meia-noite com um rapaz. Benjamin e Mrs. Robinson (Anne Bancroft) protagonizaram alguns dos diálogos mais divertidos e sensuais de suas carreiras.

A nova safra de cineastas era influenciada tanto pelo velho cinema dos grandes estúdios quanto pelas idéias européias de cinema de autor. Do primeiro, tira o potencial mercadológico; do segundo, a liberdade de, por exemplo, permitir que o ator improvise o seu papel. Com apenas 27 anos, Mike Nichols ganhou o Oscar de Direção. E, da mesma forma como aconteceu com os cineastas, houve uma renovação de astros. No lugar dos antigos galãs, como Cary Grant, Gregory Peck e Gary Cooper, os então franzinos Jack Nicholson, Al Pacino e o próprio Hoffman entraram com menos beleza e mais realismo para o panteão da fama.

* Revista Bravo!, 2007, p.76.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Cinco livros para conhecer a obra de William Faulkner

Os melhores diários de escritores

Essa estranha instituição chamada literatura: uma conversa com Jacques Derrida

Lolita, amor e perversão

O conto da aia, o pesadelo de ser mulher numa teocracia

Os ventos (e outros contos), de Eudora Welty

O primeiro conto de Ernest Hemingway

Há muitos Faulkner

Kazuo Ishiguro, Prêmio Nobel de Literatura 2017

Boletim Letras 360º #239