Almada Negreiros


Auto-retrato com grupo. Óleo sobre tela 130:197cm, 1925, Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, Portugal. O painel foi realizado por Almada Negreiros para o café A Brasileira e com ele o autor participou do Salão de Outono de 1925.

“A vocação de Almada foi a de dizer-se, de afirmar-se, de passar a vida a ser-se Almada."
Eduardo Lourenço

Este é um poeta que a crítica o tem como a figura mais polêmica do Modernismo português e assim o foi nas mais diferentes manifestações artísticas em que esteve metido – romance, teatro, artes plásticas. Mas, na definição de Carlos Queirós “em tudo, e sobretudo, poeta. Ele próprio, humanamente, poeta”. Sua inquietude ou rebeldia não são gratuitas.

Almada, além do olhar aguçado do poeta forma-se poeta de um tempo também de inquietude e de rebeldia. Marca-se como o artista que via na arte o espaço – não apenas para as transgressões estéticas – mas para “estetização” de questões sociais mais complexas. Álvaro Cardoso Gomes o lê como ilha – “Eu tenho visto olhos!/ Mas nenhuns que me vissem/ nenhuns para quem eu fosse/ um achado existir/ para quem eu lhes acertasse lá/ na ideia/ olhos como agulhas de/ despertar/ como íman de atrair-me vivo/ olhos para mim!” – num mundo regido pelo senso prático e pelo frio racionalismo, pelo seu tom avesso ao convencional, ao mau-gosto e à doença da civilidade impetrada pelo nascimento da burguesia.

E claro, tudo isso está em poemas como “A cena do ódio”, escrito como espécie de resposta ao “Ode triunfal”, de Álvaro de Campos. Autor de vários manifestos que, de certo, sacudiram os rumos da vanguarda futurista e do próprio Modernismo em Portugal, o tom de poemas como o “A cena do ódio”, além da rebeldia, é o do teatro, universo também pelo qual, muito transitou: O jardim de Piarrette, Pierrot e Arlequim, Antes de começar e Deseja-se mulher.

Nascido em 7 de Abril de 1893 na Fazenda Saudade, em São Tomé. Viveu em Paris na mesma década em que Sá-Carneiro, em Madrid, onde trabalhou como artista plástico entre 1927 e 1932 e em Lisboa. Integra, a partir de 1915 a frente do grupo de Orpheu e mais tarde de Portugal Futurista. Além das obras para teatro, publicou a novela A engomadeira, e Nome de guerra – obra literária sua mais conhecida, que inaugura em Portugal o anticonvencionalismo na narrativa moderna.

“A cena do ódio” – longo poema de forte tom inconformado publicado em 1915 – é lido pela crítica como um texto de referência para a compreensão do temperamento de Almada, uma vez que seu tema principal foi sempre o da nascente crise do sujeito na modernidade.

O poeta, em junho de 1970, dá entrada no Hospital S. Luís dos Franceses e morre no dia 15, no mesmo quarto onde morreu Fernando Pessoa. 

Ligações a este post:
>>> No blog do caderno-revista 7faces é possível ler poemas de Almada Negreiros, inclusive "A cena do ódio". 

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