terça-feira, 30 de agosto de 2011

127 horas, de Danny Boyle

Por Pedro Fernandes

James Franco em atuação como Aron


Está aí um dos filmes - que já assisti a certo tempo e fiquei de comentar por aqui - que me impressionou muitíssimo; devo ter ficado uns tantos dias tontos com seu enredo. E por motivos muito óbvios. Primeiro porque esse filme vem dialogar indiretamente com um pensamento que já certa vez escrevi neste blogue: sobre nossa incapacidade (por vários momentos) de ter aquilo que chamamos de controle sobre o rumo da nossa própria vida. Não que eu acredite em destino. Se um dia acreditar em destino, então terei de acreditar nas previsões feitas por "descobridores" do futuro de toda sorte - ciganas, cartomantes, astrólogos, sensitivos etc. 

Segundo porque reforça aquela ideia que, antes das baratas, devemos ser uma das últimas espécies a ser extinta na Terra. E aqui tem um porém de previsão misturado com conhecimento parco de ciência. A proximidade com a morte experienciada pela personagem central do filme nos coloca também diante do nosso iminente destino. Talvez, por esses dois motivos é que 127 horas tenha sido uma agradável surpresa, já que não esperava, assim, muita coisa do filme. E por motivos também óbvios. Às vezes um deslize de um cineasta marca um tanto quanto sua carreira. E Danny Boyle já tinha no seu currículo o fiasco de A praia. Mas tinha também em seu currículo uma peça como Quem quer ser um milionário. O fato é que em 127 horas estamos diante de um diretor que, sem exageros, supera tanto a fase triste de A praia como a própria glória de Quem quer ser um milionário.

Da multidão e do frenesi do mundo contemporâneo as lentes captam Aron. De natureza aventureira o seu hobbie está em desafiar os limites seus e dos natureza. Aron é daqueles aventureiros que sai sozinho pelo mundo à cata de romper esses limites. Se a princípio podemos achar que este será um filme de aventura, logo essa impressão é desfeita porque um acidente colocará, em definitivo, Aaron diante de seus limites. E o inusitado reside no fato como se dá esse acidente: se a personagem já desafiara tantas e tantas vezes tais limites, será de uma simples caminhada que os limites serão postos à prova, contrariando ainda a máxima de que o perigo reside naquilo que de perigoso buscamos e corroborando que para colocarmo-nos no perigo basta estarmos vivos. Aron fica preso pelo braço numa fenda estreitíssima no meio do nada do Blue John Canyon. E aí reside um terceiro elemento que nos leva à vertigem com a situação filmada por Boyle: o acontecimento foi baseado em fatos reais. Em maio de 2003 o engenheiro civil e alpinista Aron Ralston sofre um acidente num remoto canyon do Utah e se vê preso pela mão direita esmagada por uma enorme rocha. Aron sobrevive cinco dias nessas condições. E é sobre essa via crucis que se concentra a trama de 127 horas.

A riqueza do filme está na capacidade de construção de seu enredo. Afinal, o que contar de uma única personagem em cena sem ser um filme documental? E é aí que Boyle insere no filme aquilo que sustém a narrativa contemporânea - as outras histórias. Seja as filmagens com câmera caseira do drama de Aron, seja os excertos com flashback e flashfoward produzindo aquilo que a crítica já assinalou como uma esquizofrenia imagética. Todo esse movimento e a proximidade com que somos conduzidos para o drama nos faz além de despertar o sentimento de claustrofobia o sentimento de termos passado os cinco dias com Aron.