O porquê o discurso religioso não me convence ou sobre determinados retrogradismos

Por Pedro Fernandes



Não quero começar falando que as igrejas cristãs são retrógradas. E aqui devo me centrar na Católica, até porque foi nela que me batizei três vezes (faltando apenas matrimoniar e ungir para fechar o ciclo dos sagrados sacramentos) e porque são a partir de algumas considerações dela as também algumas considerações que aqui farei. Mas o seu retrogradismo é óbvio e ululante para falar apenas sobre isso, o que não deixarei de fazer tendo em vista o que aqui já considero. Também nem deveria me prender a essas querelas porque simplesmente as ignoro. Mas, o fato de as ignorar não é gratuito. Ele se deixa levar por algumas opiniões particulares e essas opiniões, sim, devem ser apresentadas.

O princípio dessa fala toma por base a lastimável observação feita por Joseph Ratzinger de ser o casamento gay uma ameaça ao futuro da humanidade. A afirmativa não foi feita com essas palavras, mas o discurso de Ratzinger dizia acerca das “ameaças” ao futuro da humanidade (a consumação das pesquisas com células tronco embrionárias, a seleção pré-natal em função do sexo e as medidas que ‘incentivam’ o aborto) caminha para isso: "Dentre estes, conta-se em primeiro lugar a família, fundada sobre o matrimônio entre um homem e uma mulher; não se trata duma simples convenção social, mas antes da célula fundamental de toda a sociedade. Por conseguinte, as políticas que atentam contra a família ameaçam a dignidade humana e o próprio futuro da humanidade. O quadro familiar é fundamental no percurso educativo e para o próprio desenvolvimento dos indivíduos e dos Estados; consequentemente, são necessárias políticas que o valorizem e colaborem para a sua coesão social e diálogo." Isto é, leia-se, sua manifestação acerca do largo esforço que os cidadãos vêm fazendo em cobrar dos Estados políticas de reconhecimento de direitos aos gays. Qualquer um que souber ler terá essa interpretação.

Do meu ponto de vista, Ratzinger deve considerar que num futuro todos os mais 8 bilhões de homens serão gays. O que somente isso já aponta o quão estapafúrdia é sua previsão. Outra: não dá pra acreditar numa Igreja que em tempos idos foi a mentora de pelo menos uma leva de massacres humanos e, nem por isso, quando a humanidade pensou em extingui-se, a coisa aconteceu. Duas coisas: ou não haviam gays naquela época ou a humanidade é muito bem-quista de Deus que veio logo a intervir para que tomássemos consciência do mal feito e dessa por encerrada a matança indiscriminada. O que mais uma vez é estapafúrdio porque a humanidade se digladia desde que criamos a ideia de superioridade ou soberania e até agora ainda estamos na casa dos bilhões e com projeções nada agradáveis de mais pessoas na Terra daqui para diante.

Devo voltar ao que já disse outras vezes, noutros momentos em que me debati em torno das máximas religiosas sobre questões diversas. Claro que a Igreja será sempre contra determinadas orientações humanas: está aí sua fala em torno do uso da camisinha. Enquanto milhões morrem ao redor do mundo, ela insiste numa falácia do pecado, que para a pequena parte da humanidade esclarecida tudo são cargas d’água. A Igreja tem seu dogmatismo e deve mesmo zelar por ele, mas não tem o direito (e aí está sua incapacidade) de delimitar procedimentos para que os lhe seguem irem como bestas hipnotizadas reconhecer o irreconhecível.

Se a família comum é a que zela pelo futuro da humanidade, a Igreja Católica é a primeira a infringir suas considerações, afinal os padres e outros membros condutores da instituição são, sob um celibatarismo, obrigados a não contraírem matrimônio. Situação que, na grande maioria dos casos, servem tão somente para camuflar uma legião de gays enrustidos ou de criminosos sexuais em potencial.

Ao se posicionar assim, a Igreja novamente está sendo hipócrita. Digo novamente para retomar aqui o fatídico ideal de pobreza soprado aos quatro cantos. Ou ainda o ideal de paz. Quando, na verdade, a Igreja é a última a dar um exemplo do desapego ao materialismo e a primeira a pedir paz, quando ela própria desconhece os princípios da harmonia. Ao colocar gays como ameaça a soberania humana, a Igreja posiciona-se criador de um apartheid social e funda um gueto simbólico no qual os do gênero são o que há de mal e desprezível da humanidade. E tanto isso é verdade que, segundo o mesmo Ratzinger a educação das crianças precisa de ‘ambientes’ adequados quando “o lugar de honra cabe à família, baseada no casamento de um homem com uma mulher”. E aí, onde vai parar a máxima cristã do “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”?

A Igreja tem todo direito de expressar, manter ou remover seus posicionamentos. Mas ela não tem o direito de contribuir ainda mais para que o separatismo e que a incitação ao preconceito – seja de que natureza for – tornem-se vias comuns para determinadas questões. Sabe aquele ditado que diz, se você não sabe ajudar então não atrapalhe? Cabe bem aqui.


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