90 anos de uma jovem rebelde

Por sequência: Capas do Programa e catálogo, por Di Cavalcanti; Capa do livro Paulicea desvairada, de Mario de Andade, atribuída a Guilherme de Almeida; Capa da 1° edição de revista Klaxon (autor não identificado). Fonte: Tumblr da Cosac Naify

Ainda no ensino básico, nas afortunadas escolas que contam com lampejos de ensino de Literatura, há um período literário brasileiro que divisor de águas no gosto dos adolescentes: o Modernismo. Digo divisor, porque haverão os que gostam da irreverência do movimento e o tratamento dado agora ao literário e haverão os que terão mais um motivo para caracterizar a literatura como coisa-de-quem-não-tem-o-que-fazer ou coisa-chata. 

O movimento - e aqui podemos fechar o sentido do termo, porque a atitude dos que se envolveram direta ou indiretamente foi o de uma mobilização em torno de ressignificação de vários campos da arte - sempre nos é apresentado tendo a Semana de Arte Moderna como abre-alas. Mas, é preciso que entendamos que a data de 1922 não foi fechada naquilo que temos comumente por semana, tampouco foi algo esplendoroso tal com os cerimoniais de entrega de prêmios e muito menos ainda algo que buscava um contato direto com a massa popular. Antonio Candido que o diga. A Semana de Arte Moderna tal qual concebemos hoje incorpora todas três visões e se constitui numa grandiosidade superior àquilo que ela realmente foi: "um encontro entre rapazes modernistas com dois cinquentões: o escritor e diplomata Graça Aranha, que voltava de uma temporada na Europa, e o fazendeiro e mecenas Paulo Prado, de rica e influente família paulista", como assinala Thyago Nogueira, autor do recente 1922 - A semana que não terminou (Cia. das Letras).

Logo, vê-se que foi um movimento pequeno, dado mais na surdina que na pompa, e, sobretudo, elitizado. A elite do café, sobretudo, que havia transformado São Paulo no centro das atenções à época e feito da capital um cenário efervescente e emergente para artisita, escritores, jornalistas etc. Ainda quanto ao elitismo não é necessário destilar aqui raízes de copas de árvores genealógicas de seus integrantes, basta que se leia a produção literária desse periódo para entendê-lo. O hermetismo da linguagem da "nova" e "genuina" literatura brasileira é suficiente para vermos que o leitor (se é que pensavam nessa categoria pela época) eram os da própria elite. Claro que, paralelo a esse novo fazer literário há uma série, diria avalanche, de novidades sociais, técnicas e econômicas num Brasil que se aproximava do centenário de sua independência. E novamente cito Thyago Nogueira. Havia no sentimento de rebeldia (até meio adolescente do grupo) um outro sentimento que era o de preocupação em definir uma identidade literária genuinamente brasileira. Está aí a Antropofagia oswaldiana como prova definitiva.

O legado que a data, que fechou esta semana ciclo de 90 anos, é o de ter sido um espaço para reflexão de um cenário artístico em gestação ou  formação de uma base que só viria se consolidar muito tardiamente. Os da Semana, Oswald, Mário, Anita Villa-Lobos, Manuel Bandeira, entre outros, não foram responsáveis por um corte abrupto e uma total transformação do cenário artístico e literário, mas construíram, a modo de uma rebeldia até ingênua, uma outra forma de ver a arte e a literatura.

Ligações a este post:
Tenha acesso a todas as edições de Klaxon, um dos periódicos surgidos pela época e que cumpriu (e muito) o papel de divulgador dos ideais da Semana. E aos exemplares da Revista de Antropofagia.

Leia mais sobre Oswald de Andrade (Os escritores), um dos mentores do movimento de 1922.

Acesse versos à boca da noite e leia o poema "Os sapos", de Manuel Bandeira.


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