Blade Runner - o caçador de andróides, de Ridley Scott



Mistura de ação e filosofia diferencia visão pessimista do futuro de outras ficções científicas

Los Angeles, 2019. Com o planeta transformado em sucata por causa da chuva ácida e de outros desastres ambientais, a humanidade migrou para colônias espaciais e a Terra abriga apenas os excluídos. Nesse cenário de caos, cinco replicantes (andróides extremamente desenvolvidos) desafiam a proibição de vir à Terra e são caçados por policiais chamados "blade runners". Um ex-caçador, Deckard (Harrison Ford), é convocado para eliminar os intrusos (cujas vidas duram apenas quatro anos), e acaba descobrindo segredos sobre a própria identidade.

O que diferencia Blade Runner - o caçador de andróides, dirigido por Ridley Scott, de outras produções futuristas centradas centradas na ação é, em parte, seu conteúdo filosófico. Ao serem montados, os replicantes recebem memórias afetivas, o que lhes dá uma consciência quase humana, fazendo com que demonstrem emoções. O fato de serem monitorados por grandes corporações faz referência à formas diversas de controles individuais já presentes no início dos anos 1980, quando o filme foi realizado. A desumanização e a construção que fazemos dos sentimentos e lembranças são outros temas explorados. O roteiro foi inspirado em Do androids dream of electric sheep?, do cultuado autor de ficção científica Philip K. Dick. A fotografia, a direção segura de Scott, os cenários futuristas banhados de luzes difusas e a gélida trilha sonora de Vangelis mantêm seu apelo intacto. A obra também serviu de trampolim para Rutger Hauer, Daryl Hannah e Sean Young, que se tornaram atores conhecidos.

A mistura de ação de filosofia e o elaborado visual, fatores que tornaram o filme cultuado, também atrapalharam seu desempenho nas bilheterias no lançamento. Era uma obra cerebral demais para o público, que esperava tiros e perseguições. Como Scott foi obrigado a fazer diversas alterações na montagem para deixar o resultado mais palatável, mudando inclusive o desfecho, originalmente pessimista, a crítica se dividiu entre elogios e restrições. Apenas em 1992, quando o cineasta relançou o filme na edição que ele havia concebido, sem a narração em off de Ford com o final original, Blad Runner recuperou o status que sempre mereceu.

* Revista Bravo!, 2007, p.80.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Cinco livros para conhecer a obra de William Faulkner

Os melhores diários de escritores

Essa estranha instituição chamada literatura: uma conversa com Jacques Derrida

Lolita, amor e perversão

O conto da aia, o pesadelo de ser mulher numa teocracia

Os ventos (e outros contos), de Eudora Welty

O primeiro conto de Ernest Hemingway

Há muitos Faulkner

Kazuo Ishiguro, Prêmio Nobel de Literatura 2017

Boletim Letras 360º #239