Augusto dos Anjos



Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Sou incapaz de ter certeza sobre, mas tenho comigo a convicção de que estes versos - íntimos - atentem ao adjetivo - íntimos - são, juntamente, com Tinha uma pedra no meio do caminho/ No meio do caminho tinha uma pedra, de Carlos Drummond de Andrade, um dos mais conhecidos entre os brasileiros que ainda tenham um fio parco de memória literária. Aliás, nem tanto literária assim, porque de outra coisa posso ser incapaz de ter certeza, mas tenho comigo mais convicção que a anterior, que os brasileiros são destituídos desse tipo de memória. É uma memória popular, mesmo. Porque tais versos já se infiltraram na língua falada do povo, como de muitos outros poetas. A afirmativa é polêmica e certamente merece ser tratada como tal noutro momento que não este. 

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Os versos - íntimos são de Augusto dos Anjos, poeta tratado pela crítica tardia como singular. Não apenas porque a mesma crítica nunca conseguiu alocá-lo numa das gavetas literárias, mas porque a obra única deixada pelo paraibano, Eu, publicada numa tiragem por conta própria e ainda de dinheiro emprestado, constitui-se num marco nas literaturas de expressão portuguesa. Esses versos recortados são do soneto "Versos íntimos", um dos mais conhecidos do poeta - li-os ainda no ensino médio num livro didático que nunca estudei em sala e, como todo adolescente que lê Augusto dos Anjos, logo me encantei pelo poeta. Se Drummond foi-me um poeta que descobri já leitor, Augusto vem do principia de tudo. E tem uma singularidade que talvez seja a comum de todos os que o lê pela primeira vez: o gosto pelo mórbido é, sobretudo, um mergulho na parte mais cruel do que somos, para expô-la assim, toda nua, na poesia. O tom áspero, cru, revoltado, pessimista, uma linguagem que transborda o sentido da palavra evocada e, consequentemente, do próprio poema, é uma marca indelével do poeta paraibano.

Em "Versos íntimos" - por exemplo - apesar do título enunciar um tom de intimidade romântica, o que leitor irá encontrar é o limite da razão amorosa, o ódio transmutado em coisas que despertam o nojo, o egoísmo, a angústia.

***

Augusto dos Anjos nasceu no Engenho Pau d'Arco, Paraíba, em abril de 1884. Formou-se em Direito na Faculdade de Direito do Recife. Depois, casou-se e foi morar no Rio de Janeiro, quatro anos depois, onde continuou nos trabalhos como professor. Nunca chegou a se efetivar na profissão. Depois do Rio, foi para Minas Gerais.

Eu foi publicado em 1912. Seu único livro de poemas e custeado por conta própria através de um empréstimo feito ao irmão. A primeira edição teve tiragem na época de mil exemplares e veio num tom inovador - posso afirmar sem medo - para o design do livros. Capa lisa apenas escrito em cor vermelha um berrante e solitário EU. O livro foi recebido pela crítica sob dois cordões: um, entusiasta; outro, de repulsa. Dois anos depois, o poeta morreu, em Leopoldina. Nunca viu o sucesso que seu livro faria.

 

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