O Delfim, de José Cardoso Pires

Por Pedro Fernandes


A primeira vez que li O Delfim saí do romance um tanto quanto perdido. Mas, saí assim com outros romances. A maçã no escuro, da Clarice Lispector, o primeiro deles, Grande sertão: veredas, do Guimarães Rosa, O evangelho segundo Jesus Cristo, de José Saramago, Janela de Sónia, do Manuel Rui, o mais recente. Sair assim de um livro, portanto, parece ser algo natural, se percebermos que a semelhança que há entre todos esses romances citados está naquilo que podemos chamar por "magnitude". O magma verbal desses romances - estágios de interlíngua no código em que se situam - é o suficiente para se produzir aqui o entendimento, mais acurado, do porquê saí/sai-se um tanto quanto perdido d'O Delfim. São obras que se apresentam como um desafio ao pensamento do leitor porque são antes um desafio à forma, estrutura e à linguagem.  

Outra razão que justifica meu perder-se talvez esteja na velocidade com que empreendi sua primeira leitura. Estamos mesmo acostumados com a ideia de que o romance, diferentemente da poesia, está aí para ser devorado. Não há espaço, tempo ou dia ideal para se ler um romance, lê-se em qualquer lugar, a qualquer hora, a qualquer dia. Ledo engano. Há romances - os grandes - que exigem do leitor mais que abri-lo e lê-lo, exigem-nos o papel de construtor da sua narrativa; se, para uns, o romance é o sinônimo da passividade do leitor, para o caso do romance de José Cardoso Pires e, consequentemente, para os outros que listei, o leitor desempenha o papel de sujeito ativo e responsável, tanto quanto sobre o que se apresenta na corrente da escrita, quando na montagem da narrativa. Logo, O delfim merece ser lido devagar, como quem, à maneira do narrador, está ali à caça de alguma coisa. O processo que atribuímos apenas ao poema, deve ser empregado com todas as ferramentas em romances desse tipo.

No caso do romance em questão, essa leitura pausada não se dá porque o narrador tenha escolhido uma linguagem que beire ao poético; a linguagem de Pires é objetiva, bebe no estilo de contar de um Ernest Hemingway, parece absorver ainda do texto jornalístico outra parte dessa condição. A leitura pausada se dá para compreender a maneira como a narrativa geral se estrutura pelo jogo de encaixe das narrativas menores - eis um exercício cuja base é a de conseguir registrar na escrita a complexidade das linhas constituintes do real evocado pelo romance. Isto é, está em questão compreender a maneira como o narrador estrutura o real da narrativa pela aproximação que mantém com o real social e apreender a maneira inovadora com que constrói essa inter-relação.  

Cena de O Delfim. Em 2001, o livro de José Cardoso Pires foi adaptado para o cinema pelo diretor português Fernando Lopes.

Escrito em 1968, O Delfim é apontado pela crítica como a obra-chave da produção literária de José Cardoso Pires. Em linhas gerais, tem-se aí a história de um escritor-caçador que volta, depois de um ano, às terras da Gafeira. A propriedade (fictícia) pertencente ao Tomás Manuel Palma Bravo, o delfim, um marialva em declínio à modo de José Amaro,  coronel falido de Fogo Morto, do brasileiro José Lins do Rêgo, está sob suspense, devido à morte de sua esposa, Maria das Mercês; em seguida, se descobre que o criado, Domingos, também. E o delfim, desaparecido. Instala-se aí o mistério. Com todo esse cenário policialesco não estamos diante de um romance à Agatha Christie. Não. Porque se nos romances policiais os crimes têm uma solução, não parece ser esse o interesse em O Delfim. O que se sabe, apenas, é que, o crime pode ter se dado de todas as maneiras possíveis. A chave de um romance policial não é esse? É. Mas, em O Delfim, não se apresentam soluções, somente pistas: tanto Tomás pode ter pego Maria das Mercês, sua boneca de luxo intocável, com o criado Domingos e ter dado cabo dos dois, como algum dos moradores da Gafeira, cansado da opressão vivida pelo delfim ter feito isso e, pode até, que a própria Maria das Mercês tenha articulado tudo pelo fato de ter pego Tomás com Domingos.

O crime é, pois, apenas uma chave para prender o leitor e mostrar, isto sim, a ruína de um modelo social que como a burguesia, anteriormente criticada em Eça Queirós, dá seus últimos suspiros: o latifundiarismo e os microssistemas de opressão que os senhores donos de terra davam corda sobre os mais fracos. Levante, aliás, que se dará, em definitivo, num outro grande romance, o Levantado do chão, de José Saramago. 

Findo dizendo que, O Delfim, não é bem um romance no sentido estrito do termo. Mas, uma possibilidade de romance. O modo como José Cardoso Pires o concebeu foi para sê-lo não apenas um documentário do momento vivido por Portugal àquela época, mas para uma desconstrução do modo factual de se produzir narrativa na literatura de língua portuguesa. José Cardoso Pires se beneficia dos processos mais sofisticados de composição do texto romanesco. E os tem todos ao seu favor: a polifonia, a intertextualidade, a interdiscursividade. Todos estão aí em pleno funcionamento e, o que leitor, logo se depara, é com uma estranha e extensa engrenagem cujas peças se mostram e se escondem, em simultâneo, e o obriga à montagem e remontagem constante da narrativa. Se há algo de policial nesse romance de José Cardoso Pires, o leitor é quem deve se portar como um Sherlock Holmes.



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