Pedro Nava

Pedro Nava e a mulher, Antonieta Penido, Rio, 1980. Fonte: Revista Carta Capital

Desde 2012, a obra de Pedro Nava ganha reedição pela Companhia das Letras. A renovação da obra só reitera uma coisa: a importância da sua literatura para o panorama da produção literária no Brasil. Nava figura, nos dizeres da crítica especializada, como o mais importante dos nossos memorialistas ou como já o designaram um Marcel Proust dos Trópicos. Dentre suas obras mais famosas estão Baú dos ossos (1972), Balão cativo (1973), Chão de ferro (1976), Beira-mar (1978) e Galo das trevas (1981). Todos esses títulos estarão muito próximos do leitor brasileiro.

Natural de Juiz de Fora, companheiro, entre outros, de Afonso Arinos e Prudente de Moraes Neto no internato do Colégio Pedro II, Nava seguiu a carreira da medicina depois de findar o curso em 1927. Seguiu a carreira do pai, José Pedro da Silva Nava. Especializou-se em Reumatologia, e sempre usou a profissão (de maneira brincalhona, é claro) como elemento que o fez decidir-se pelo não-ingresso na Academia Brasileira de Letras. Na Faculdade de Medicina de Belo Horizonte foi colega de Juscelino Kubitschek, amizade que durou por toda a vida.

A atividade das letras, portanto, foi exercida como hobbie que levou muito a sério. Moacyr Scliar, tem seguido os mesmos passos do mineiro. No caso do primeiro, não fez das letras apenas um exercício estético literário; também escreveu muitos textos para sua área de atuação, lidas como uma das mais importantes e bem escritas da literatura médica.

Pedro Nava, Alphonsus Guimaraens Neto, Carlos Drummond de Andrade e Ciro dos Anjos.

A capacidade observadora, a larga memória e o lustre da palavra, termos que lhe serviu para ser considerado o melhor memorialista que um dia tivemos, foram descritos pelo amigo Carlos Drummond de Andrade como uma "capacidade meio demoníaca, meio angélica de transformar em palavras o mundo feito de acontecimentos".

Quando de sua estreia, em 1972, é ainda o poeta mineiro quem diz: "Minha geração, a que ele pertence, tem orgulho de oferecer às mais novas um livro com a beleza, a pungência e o encanto da obra excepcional que Pedro Nava realiza com estes primeiros volumes de memórias, dignos de figurar entre o que de melhor produziu a memorialística em língua portuguesa". Não foi um elogio gratuito.

Prolífico, Nava não se dedicou apenas à literatura memorialista ou médica. Também aventurou-se no ofício do verso. O “O defunto”, por exemplo, que impressionou até mesmo Pablo Neruda, foi incluído por Manuel Bandeira em sua Antologia dos poetas bissextos. Muitos textos do gênero circularam em revistas, como a Revista de Antropofagia e em correspondências para amigos, como Mário de Andrade.

Em 1999, as editoras Giordano e Ateliê Editorial deu a conhecer outra faceta criativa do escritor: a do artista plástico. Autodidata, o material reunido em 11 cadernos com manuscritos, colagens e desenhos era novidade para todos. Mário de Andrade chegou a considerar esse exercício como "uma delícia". E a publicação dos cadernos revelou novas pistas preciosas sobre a atividade criativa do escritor. "Cáustico, pândego, brincalhão, ele caricaturava médicos que infernizaram sua vida na Policlínica Geral do Rio de Janeiro. Chamava-os nos livros de Sacanagildo de Lima Goiaba, Diabolô Cabresto, Colérico e Sabugosa", lembra Norma Couri em resenha sobre o material para o jornal O Estado de São Paulo. 

Pedro Nava suicidou-se em 1984, no Rio de Janeiro. Este fato aparece sempre na penumbra e deu faniquito na família quando a questão foi explorada numa biografia editada pela Nova Fronteira; aliás, um dos motivos que fizeram os herdeiros levar a obra do escritor para outras casas editoriais. Depois de Mário de Andrade, a homossexualidade de Nava é sempre discutida como um tema sensível.

A história do suicídio é relatada ainda no livro Minhas histórias dos outros de Zuenir Ventura. Trata-se do ensaio "Um suicídio mal contado" em que o então jornalista esmiúça o caso: às 21h um homem ligou para a casa do escritor. Na ocasião Nava chegou a relatar para sua companheira que "nunca tinha ouvido nada tão obsceno ao telefone"; pegou um revólver calibre 32, saiu do apartamento e, depois de andar pelo bairro da Glória, onde morava, disparou, às 22h30 contra si.

Não ficou nenhum bilhete, embora existam escritos em que Nava revela uma certa inclinação para o tema do suicídio. Quando aconteceu a morte, logo surgiu o boato de que o escritor estava sofrendo chantagem por um garoto de programa. Zuenir recorda que, na ocasião, Artur Xexéo e José Castello localizaram Beto Prado Júnior, quem seria o amante do escritor: "Era um cara feio, comprido, muito magro, com uma sunguinha vermelha apertada e um robe-de-chambre transparente preto por cima - uma Madame Satã realmente horrorosa".

Beto então confessou que visitava o apartamento de Nava uma vez por semana, sempre às quarta-feiras. Ao dizer-se apaixonado, eles passaram a se encontrar mais vezes e construindo uma intimidade com o rapaz, o escritor teria sugerido vê-lo transando com outro garoto de programa. A fantasia se realizou, não uma, mas várias vezes e então, depois de descobrir a identidade de Nava, o novo homem da relação teria iniciado uma chantagem contra o escritor. Esse teria sido, então, o motivo do suicídio. A história, entretanto, nunca chegou aos jornais, que, de então construíram um silêncio ensurdecedor sobre o caso. 




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