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Mostrando postagens de Abril, 2012

Ler a Odisseia (parte III)

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Comumente nos referimos ao ato de viajar como um processo de fuga do lugar comum e de renovação do tempo - "Viajar é preciso senão a rotina te cansa", dirá a música. A experiência da viagem traz implícita ainda o exílio, o desejo pelo desconhecido, pelo crescimento espiritual, em busca de novas vivências e experiências. Se pensarmos mais entenderemos que a nossa própria vida é uma viagem terrena que dura o tempo que vivemos - "Para viajar basta existir", dirá o poeta. Também está associada ao movimento psíquico que empreendemos à volta de nós mesmos numa busca seja do autoconhecimento, seja por uma resposta para uma determinada questão. "É viagem o que está à vista e o que se esconde, é o viagem o que se toca e o que se adivinha" - dirá José Saramago. E em qualquer uma delas traçamos determinadas metas de perto ou longo alcance que devemos, no seu intercurso, alcançá-las; no fim de quaisquer uma fazemos sempre um retorno no qual avaliamos nossa empreitad…

James Joyce online

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Está para chegar em breve no Brasil mais uma versão para Ulisses, de James Joyce. A primeira versão do portentoso romance veio a lume em 1966 pelas mãos do filólogo Antonio Houaiss. Depois, em 2005, foi a vez da professora de literatura da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Bernardina da Silveira Pinheiro. A tradução que está para sair vem pelas mãos do professor da Universidade Federal do Paraná, Caetano Galindo e sob revisão do tradutor Paulo Henriques Britto. 
Fora do Brasil, é significativa a confusão em torno da publicação de The cats of Copenhagen publicado no início desse ano pela ITHYS PRESS. Alegam que os da editora não detinham os direitos para a atitude tomada. O desfecho para isso? Não sei de nada, mas tenho acompanhado. 
Confusões à parte e enquanto o novo Ulisses não chega por cá, no início do mês a Biblioteca Nacional da Irlanda anunciou a disposição na web de parte da importante coleção de manuscritos de James Joyce; os planos da biblioteca terão toldado os do estud…

Uns patriotas

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Não, não é erro de grafia. Mas, o novo livro de Nelson Patriota, Uns potiguares bem assim poderia ser chamado. Porque este é um livro com escolhas aleatórias ou afetivas do escritor. E suas leituras aí apresentadas dispensam qualquer rigor acadêmico. Ficamos diante de um leitor comum que escolhe por no papel e, portanto, abrir ao público, seu modo de ler e como que os diversos temas evocados nesse instante são por ele compreendidos ou como ele os entende do ponto de vista do próprio escritor o enforme de determinadas obras. 
A atitude, entretanto, de Nelson é mais que válida. Talvez o cientificismo pesado da crítica literária tenha feito com os leitores comuns - esses que passaram para o espaço da intelectualidade desde meados do Romantismo - se dispersem. Evidente que se seguiu, além disso, uma pesada investida dos próprios de determinado período a se fecharem nos seus universos de palavras e se fixarem num entendimento doente de que a natureza do livro existe somente com as palavras,…

Alves Redol

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Já falei por aqui não poucas vezes que há um pacto entre escritor e leitor que é construído invisivelmente no momento em que o primeiro está a escrever sua obra. A função exata desse pacto é o a de ser "desafio" ao segundo elemento dessa relação. De modo que, particularmente, a mim interessam-me as obras que me desafiam. Assim foi com Alves Redol quando me deparei pela primeira vez com seu famoso texto, Gaibeus. Pois bem, já em Fanga o autor português assim se expressava: "Não é difícil entender-se o que escrevo e porque escrevo. E também para quem escrevo. Daí o apontarem-me como um escritor comprometido. Nunca o neguei; é verdade. Mas também é verdade que todos os escritores o são."

Para quem escreve um escritor? Essa talvez seja uma das perguntas que juntamente com por que escreve e o que escreve seja a mais buscada a resposta dos escritores. Curiosa pergunta que foi respondida a certa altura pela Inês Pedrosa num desses programas na televisão portuguesa que as…

"Asymptote" e Flávio Araújo

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A web é, cada vez mais, o lugar onde mais proliferam invenções literárias. Se antes da existência da internet os escritores ou aspirantes a se punham a engavetar papeis, agora, muitas dessas gavetas estão abertas por aí. Às vezes abertas só para um pequeno e afetuoso público, muitas outras para um público sem tamanho, o suficiente para despertar nos grandes conglomerados editoriais o interesse em transformar toda essa parafernália digital em papel. 

Descubro recentemente mais uma dessas gavetas que como o Letras in.verso e re.verso anda a buscar pessoas talentosas para si, do modo como faz o caderno-revista 7faces. Asymptote. É este o nome do lugar. Ao modo do periódico nascido daqui, Asymptote se apresenta como uma revista internacionaldedicada àtradução literáriae a reunirem um só lugaro melhor daescrita contemporânea. "Estamos interessados ​​emencontrosentre as línguase as conseqüênciasdessesencontros." Asymptote é o nome dado à linha pontilhada no gráfico de uma função ma…

Livro é objeto-sujeito

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Acho que não é mais necessário falar sobre o legado insofismável dos livros. Sim, eles mesmos que não de hoje, mas hoje é dia, têm data comemorativa mundial. Data controversa porque, quando se criam dias para, eles servem para quê? Para não deixar que a coisa ou fato comemorado caia no esquecimento. Essa deve ser a primeira resposta que vem a cabeça de todos que forem confrontados com a pergunta. E a resposta é verdadeira; tanto que o difícil é ter de explicar por outro caminho. Não me darei ao trabalho de fazer esse outro caminho possível. Tais datas existem para isso e pronto. Já têm quando de sua criação suas necessidades desenhadas e muito se comenta o porquê de ter escolhido a tal altura um dia específico em que se deseja que uma determinada coisa ou fato seja longamente lembrado para que tenha também longa vida.
Quero apenas dizer que, além de um legado sem palavras o livro, concretiza em si a melhor forma de vencimento da vida sobre a morte. Por ele, é possível olhar o que se pa…

Ler a Odisseia (Parte II)

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Já disse alguém, e não terá sido o primeiro, que Homero é um mistério, um enigma. Nada se sabe sobre sua vida e, o pouco que se sabe é um rol de possibilidades. Entretanto, a Odisseia juntamente com a Ilíada, duas das mais importantes obras da literatura ocidental, são-lhe atribuídas. Se resumíssemos as poucas mais de quatro centos de páginas (isso tomando a edição que tenho, a publicada pela Editora 34) diríamos tão somente que é a história de um homem que volta à sua casa depois de uma grande viagem. No território das suposições acredita-se que os dois textos homéricos sobreviveram à larga somente através da oralidade dos bardos até que fossem escritos. 
Esse movimento da oralidade terá feito com que muito tenha se perdido e muito tenha se acrescentado? Evidentemente. Se a Bíblia, considerada livro sagrado, não terá resistido às compilações e às traduções, não será novidade nenhuma que os livros homéricos tenham passado por essas hecatombes. Fato é que, o traço da oralidade permite …

"Espelho, espelho meu", de Tarsem Singh

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Talvez esse filme sirva como exemplar para uma coisa: espantar tédios. E só. Já terá servido e muito. A ideia é bem-quista: voltar a um clássico popular coligido pelos irmãos Grimm. A história todos já conhecem, inclusive a fala de efeito da rainha má - Espelho, espelho meu, existe alguém mais bela do que eu? Mas, como todo grande conto de fadas dispõe de uma maleabilidade textual tão forte só justificável pelo fato de ter sua base na oralidade, Tarsem Singh capricha em algumas subversões e reinaugura o texto de 1812*. Essa reinauguração, sim, me é bem quista. Agora, a história contada pelo ponto de vista da rainha má, brilhantemente interpretada pela Julia Roberts (aliás, o que seria do filme sem a presença dela, ein?), merecia ao menos um desfecho outro e não a bizarrice anticerebral aí apresentada. Mas, fiquemos por aqui e voltemos mais tarde para falar melhor sobre isso.
Evidentemente que, com todas as subversões impetradas no enredo do conto conhecido, Espelho, espelho meu prese…

Um caderno para Saramago - atualizações

Em 2003, o escritor português numa de suas várias viagens ao Brasil, esteve na sede da TV Cultura para a gravação de uma participação ao programa Roda Viva. Recentemente a emissora disponibilizou no Youtube a versão integral dessa entrevista, que é o destaque das atualizações feitas no espaço-projeto Um caderno para Saramago. A entrevista pode ser assistida acessando no menu Outros textos > Vídeos.
Ainda no Youtube ando catalogando outros momentos em vídeos do escritor, tais como os vários depoimentos dados para documentários diversos. Em breve, esses vídeos também integrarão aí os bancos de dados. 
Novidades ainda no menu Notícias com destaque para o lançamento na próxima segunda-feira da revista eletrônica da Fundação José Saramago, Lucerna.


A cidade textual e Fernando Pessoa

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Não foi Fernando Pessoa  o primeiro escritor a compor uma urbe de tinta e papel que vai se firmando ao mesmo tempo como espaço existente e ficcional. Tão longe onde eu possa alcançar no universo literário, a cidade é marca narrativa já desde a Odisseia, de Homero; no escritor grego, inclusive, é a cidade elemento determinande na identidade dos sujeitos. Lisboa, então, exerce um fascínio tamanho sobre os seus visitantes e moradores de visão mais aguçada que não foram poucos os que se aventuraram a redigir verdadeiros itinerários que, na maioria das vezes, pode ser roteiro de viagens sem quaisquer defeitos. É o caso, por exemplo, do José Saramago que contratado para produzir uma coisa do gênero, foi além e escreveu Viagem a Portugal, publicado em 1980.
Tudo isso serve para dizer de um achado na web que perfaz em três passos principais a Lisboa de Fernando Pessoa. Quem serve de guia é a jornalista e pesquisadora Marina Tavares que descubri juntamente com a matéria nesta semana. Perfazendo…

Escrever: inspiração ou talento?

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Lendo um artigo publicado no jornal espanhol El País no qual um grupo de escritores, entre eles Juan Gelman, refletem sobre a tarefa do escritor e oferecem algumas recomendações aos autores iniciantes e relembrando uma listinha de 10 conselhos de Carlos Drummond de Andrade editada pelo escritor Michel Laub a partir da crônica "A um jovem", me fiz a pergunta que colore esse post: Escrever é inspiração ou talento?
Acho que os conselhos dados pelos escritores já são provas mais que suficientes de que nem uma coisa nem outra existem se não for o sujeito extremamente cuidadoso com a profissão. E escrever é uma profissão? Bom, isso é debate para outro post, mas adianto, se não se encara como profissão, logo logo você deve correr para construir essa imagem. O excesso de modéstia, negando-se escritor, só deve durar e servir de encanto ao público quando já todos enxergarem-no como tal. E não deve durar muito. Portanto, cuidar dessa incubência é necessidade.
"A inspiração é a ocasi…

Arquivos na web para se deliciar

Tenho para mim que, para quem ler alguma coisa em Inglês ficará maravilhado com essa descoberta: a conceituada The Paris Review organizou um espaço em sua página eletrônica com entrevistas a escritores realizadas desde a década de 1950 a 2010
Por lá encontraremo-nos com autores como T. S. Eliot, William Faulkner, Truman Capote, Ernest Hemingway, Jorge Luis Borges, Jean Cocteau, Saul Bellow, Jack Kerouc, Aldouxs Huxley, Ezra Pound, Vladimir Nabokov, Robert Fitzgerald, Elizabet Bishop, Marguerite Yourcenar, Ítalo Calvino, José Saramago, entre outros.
Já o jornal francês Le Monde que publica uma repasse biográfico da vida de Virginia Woolf pelas mãos da escritora Virginie Despente, apresenta uma gravação (reproduzida abaixo) em que se pode escutar a autora de Orlando falar como a língua inglesa do pós-guerra poderia libertar o pesadelo do passado. Não custa lembrar que a Cosac Naify lançará em breve uma edição caprichadíssima de seu famoso romance Mrs Dalloway com tradução de Cláudio …

labirinto

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se me calo
me vencem
se me rebelo
eles lucram

* Acesse o e-book Palavras de pedra e cal e leia outros poemas de Pedro Fernandes.

Ler a Odisseia (Parte I)

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Devo retornar à questão primeira que postei em Letras in.verso e re.verso quando dei início à leitura da Odisseia, de Homero. Daniel Mendelsohn em recente entrevista ao The Browser responde à questão posta dizendo: “Quando eu chegar a minha velhice, a resposta para isso é que os clássicos são apenas bons.” Vou na contramão de Mendelsohn para dizer que, devo ainda está longe da velhice se pensar na idade que tenho hoje, mas que, voltando agora, já prestes a fechar a leitura do livro de Homero para dizer isso: os clássicos são bons. E é, sem falsa modéstia, os únicos que ainda conseguem ajudar a esse leitor que venho construindo desde que me colocava diante da leitura da Bíblia à volta dos meus catorze anos. 

Repete-se lendo a Odisseia o que vivi lendo Dom Quixote ou Grande sertão: veredas, para ficar apenas em dois exemplos. Quanto à leitura da Bíblia aos catorze,fui precoce, então. A Bíblia é, juntamente com a Odisseia ou a Ilíada os textos bases do cânone ocidental. E, poderão me perg…

Wisława Szymborska

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Por Ruth Franklin


A Polônia do pós-guerra era uma nação extraordinariamente miserável, mas num aspecto (e talvez esse fosse o único) estava entre as mais afortunadas do mundo. Este país sem pretensões, que não é admirado por suas paisagens, por sua gastronomia ou por sua arquitetura, produziu três dos melhores poetas europeus da última metade do século. O primeiro deles foi Czesław Miłosz (1911-2004), nascido na Lituânia numa família polonesa, depois fugiu para a França em 1951 e logo emigrou para os Estados Unidos na década 1960. Foi o poeta geopolítico, o que encaixava perfeitamente com sua condição de exilado, e o primeiro prêmio Nobel da Polônia. O segundo foi Zbigniew Herbert (1924-1998), o poeta filósofo da Polônia, quem se negou a colaborar com o regime comunista e escreveu sua lírica abstrata e inteligentíssima na penúria durante grande parte de sua vida.
A última foi Wisława Szymborska (1923-2012). Embora fosse contemporânea de Herbert, a coloco no final não porque tenha vivi…

As melhores histórias de amor

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Não vou com o papo piegas de que a melhor história de amor é aquela na qual o Criador traveste-se de criatura e deixa-se morrer na cruz pela libertação da humanidade do pecado. Mérito cristão, mas eis aí um motivo contraditório e difícil de engolir. Não creio nisso e, mesmo não sendo data (e há data para falar disso?) vou para histórias de amor mais terrenas e, portanto, mais verdadeiras que quaisquer invencionices ideológicas.
A primeira que me levou às lágrimas foi Philomena Borges, de Aluísio Azevedo. E posso dizer com um tanto de convicção que talvez tenha sido esse livrinho do naturalista brasileiro que li num dia – sem pausas para o almoço – o que me colocou definitivamente no território da Literatura. Sim, porque antes eu me reduzia aos policialescos da Agatha Christie e, logo depois desse romance, parti para outras obras como O cortiço, Casa de pensão e O mulato, todos do Aluísio, para seguir com Vidas secas, do Graciliano Ramos, que foi a primeira narrativa que mais me aprox…

A poesia como arma

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Por Pedro Fernandes

Insistentemente o primeiro nome que nos vem à cabeça quando se lê o título dado a esta post é o de Maiakóvski, assim como o primeiro nome que vem à cabeça para ilustrar um texto com esse título é o de Pablo Picasso e o seu famoso painel Guernica. Por isso dele lembramos, por isso a imagem acima. O poeta soviético talvez não tivesse a preocupação por elaborar uma estética fechada numa forma da arte pela arte, mas entendia que a arte deve comparecer ao seu tempo como se uma espécie ferramenta junto à revolução social.

(É necessário que se preserve aqui todos os sentidos para o termo revolução e, claro, para o papel que o poeta entendia ter diante da sua sociedade. As circunstâncias vividas por Maiakóvski são gestadas no âmbito do peso burocrático de um dos períodos mais tirânicos do regime socialista na antiga União Soviética).
Mas, haveremos de convir que a figura Maiakóvski incomodava a muitos, aos conservadores, aos acadêmicos, aos burgueses... O poeta era arma de…