As melhores histórias de amor

Two in the hills. Margarita Sikorskaia.


Não vou com o papo piegas de que a melhor história de amor é aquela na qual o Criador traveste-se de criatura e deixa-se morrer na cruz pela libertação da humanidade do pecado. Mérito cristão, mas eis aí um motivo contraditório e difícil de engolir. Não creio nisso e, mesmo não sendo data (e há data para falar disso?) vou para histórias de amor mais terrenas e, portanto, mais verdadeiras que quaisquer invencionices ideológicas.

A primeira que me levou às lágrimas foi Philomena Borges, de Aluísio Azevedo. E posso dizer com um tanto de convicção que talvez tenha sido esse livrinho do naturalista brasileiro que li num dia – sem pausas para o almoço – o que me colocou definitivamente no território da Literatura. Sim, porque antes eu me reduzia aos policialescos da Agatha Christie e, logo depois desse romance, parti para outras obras como O cortiço, Casa de pensão e O mulato, todos do Aluísio, para seguir com Vidas secas, do Graciliano Ramos, que foi a primeira narrativa que mais me aproximou das questões sociais.

Philomena Borges é de longe um romance conhecido e também de longe a grande produção literária do Aluísio Azevedo. Mas, o comportamento de Philomena para com o Borges, guiado meramente pelo interesse ou pela ambição burguesa – motivo, aliás, fortemente francês dos romances naturalistas de Émile Zola e rescaldo daquilo que em Portugal fazia escritores como Eça de Queirós – é o que faz qualquer adolescente que está construindo um imaginário em torno da mulher sentir-se desencantado pelo sexo oposto e compadecido pelo homem que, pela época, tinha por obrigação suster os gostos femininos. Mas, a capacidade de Borges em, durante muito tempo, desfazer-se irracionalmente em agrados à esposa até à sua falência econômica é um gesto de amor sem precedentes, claro, que encontra no bem material seu apoio como era praxe da época.

Este romance tem para mim um sentido que se confunde com um ponto na minha formação leitora, mas haverá, fora dessas linhas, uma história de amor superior a esta. O amor é talvez o tema mais protagonizado na narrativa do século XXI (isso merece até uma investigação mais aprofundada). Que o digam Romeu e Julieta, de William Shakespeare, Madame Bovary, de Flaubert ou mesmo o idílico amor em Dom Quixote, de Cervantes.

Das minhas leituras ainda haverão de escapar O amor nos tempos do cólera, de Gabriel García Márquez – romance que merece uma nota para este blog – romance que acompanha a paixão do Florentino Ariza por Fermina Daza. Também devo acrescentar aqui, mesmo não tendo lido o conto da Annie Proulx, mas assistido não uma vez mas várias a sua adaptação para o cinema, que é também a versão mais conhecida, Brokeback Mountain, traduzido para o Brasil O segredo de Brokeback Mountain.

O narrador detém-se na história secreta entre dois jovens que se conhecem em Wyoming. Até aí tudo é normal se não fossem esses jovens dois homens, Ennis del Mar e Jack Twist, dois peões que se encontram – a princípio atraídos instintivamente – e mantém, mesmo depois de casados, uma longa sessão de encontros por mais de vinte anos às escondidas. Brokeback acaba se utilizando das histórias comuns de amor, mas para tratar de um tema mais complexo na cultura ocidental, que é o tabu e a violência construída em torno das relações homoafetivas. E tal interesse é contemporâneo. 

Isto é, a narrativa de amor tradicional é ressignificada ou é pano de fundo para algo maior que a lógica de se conhecer e se amar. Que o diga José Saramago e suas histórias de amor “à serviço” de questões históricas, sociais e políticas. E aí deixo três textos seus que superam, evidentemente, todos os textos elencados nesse breve itinerário: Memorial do convento e a história de amor entre Blimunda e Baltasar, Ensaio sobre a cegueira e a história de amor entre a mulher do médico e o médico e, um breve conto, O conto da ilha desconhecida e a história de amor entre a mulher da limpeza e o homem do barco.


Ligações a este post:
Pode-se ler O conto da ilha desconhecida acessando o projeto Um caderno para Saramago.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A religiosidade clandestina de Hermann Hesse

Água viva, de Clarice Lispector

Pablo Neruda: o que não dá mais para ocultar

Apontamentos sobre alguns textos curtos de Tolstói

Boletim Letras 360º #231

Quando Borges era Giorgie

Salinger, um grupo de psicopatas e os do MKUltra

A filha perdida, de Elena Ferrante

Gostamos de causar danos (com o grande romance estadunidense)

Jane Austen: casamento e dinheiro