Bastardos inglórios, de Quentin Tarantino


Por Pedro Fernandes

Christoph Waltz na pele do coronel nazista Hans Landa. Sua atuação foi lida, por unanimidade, com o up de Bastardos inglórios.


Há em Quentin Tarantino uma ironia sangrenta; quem assistiu Kill Bill e depois este Bastardos inglórios entenderá o sentido ou o conceito impresso nesses termos. O anterior é, numa leitura de duas palavras, um blasé entre uma “ex-gângster” e seus ex-parceiros do esquadrão. Dividido em dois volumes, o filme bebe na fonte dos textos escritos pela forma como está estruturado e é altamente contaminado por um jogo intercinematográfico difícil de precisar os seus limites. O modo se repete no filme de 2009. Usando dos momentos históricos do nazismo e da Segunda Guerra Mundial, Tarantino dá espaço para a atuação de dois planos elaborados por contraventores ao regime de Hitler; planos que vão desembocar na ideia de assassinato do próprio ditador, muito embora não pareça ser esta a direção inicial da narrativa. Prevalece aqui certa autonomia do desenvolvimento do texto, mesmo sabendo que há presente por trás de tudo um arguto criador.

Isso porque damos com um filme que a princípio nos mostra o poder de controle que tinha o regime nazista na época e depois suas pequens fragilidades com um grupo liderado por um certo Aldo Raine (assumidamente bem feito por Brad Pitt) composto basicamente de judeus e estadunidenses que se autonomeiam opositores ao nazismo (os Bastardos) e armados do ódio pelo regime vão ao modo do olho por olho e dente por dente iniciar um processo de dizimação interna das tropas inimigas. Até então parece estarmos diante do plano completo da trama, mas não faria sentido passar os 153 minutos do filme assistindo uma matança indiscriminada usando dos mais perversos meios, fato que se infiltra na narrativa do Tarantino através de um filme-propaganda do nazismo, O orgulho da nação, dirigido por Joseph Goebbels, e que mostra a trajetória de um atirador de elite alemão, o Fredrick Zoller. É quando entra em cena, paralela às ações do grupo de soldados de Aldo, uma certa Emmanuelle Mimieux, gerente de um cinema em Paris. Do seu encontro com o protagonista do filme de Goebbels, este cinema se fará o espaço ideal para a estreia de Orgulho da nação e com a presença de boa parte da alta patente do regime e do próprio Fürhier. Mimieux é na verdade a falsa identidade de Shosanna, uma menina judia que escapou da morte pelos nazistas, na primeira cena do poder de controle do nazismo. O seu plano tomará da oportunidade como o momento da vingança perfeita e, quando se cruza aos interesses do esquadrão de Raine intermediada por uma atriz picareta e agente infiltrada alemã, tudo poderá dar num desfecho feliz dos opositores com a derrubada do Terceiro Reich.

Contado em cinco capítulos, alguns recheados de notas de rodapé, que cumprem uma necessidade de apreensão totalizadora do real empírico, Tarantino faz em Bastardos inglórios aquilo que principiou em Kill Bill, mas num momento mais feliz, porque consegue fundir os diversos materiais dos quais se beneficia sem que isso transpareça vivamente ao telespectador. Peca, e muito, quando tomado pelo tom pop que empregou no filme de 2004, repete em Bastardos e aí a coisa parece desandar, já que, estamos diante de uma narrativa de época. Mas, o extenso tom irônico aí povoado das reduções caricaturais bem ao modo do diretor, dá ao filme um tom que sobressai dos propositais anacronismos e a sua colocação entre os dez melhores filmes eleitos pela especializada Cahiers du cinema, colocação mais que merecida.


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