O rico trabalho de Pilar em torno de José Saramago

Pilar del Río fotografada na Casa dos Bicos, sede da Fundação José Saramago
Foto: Campiso Rocha para Revista Caras


Já em José e Pilar ficamos sabendo de que, ao lado do escritor português José Saramago, esteve uma pulsante mulher de sangue espanhol chamada pelo forte e sugestivo nome de Pilar del Rio. Era ela quem cuidava de toda organização da vida pública do escritor: recebendo cartas, acertando viagens, cumprindo protocolos. Mais tarde, fez-se tradutora do companheiro para o espanhol e desde então tem sido a principal ponte da literatura saramaguiana com os leitores não somente em Espanha e os falantes do espanhol, mas no restante do mundo. Incontáveis são os percursos que ela já tem feito por tantos países a levar a obra do Prêmio Nobel, que depois de sua morte, há quase dois anos, já se multiplicou em três livros inéditos a saber O último caderno, As palavras de José Saramago - organizado por Fernando Gomes Aguillera que também foi curador da primeira grande exposição sobre o escritor, A consistência dos sonhos já visitada no Brasil, depois que teve sua abertura, em Lisboa, Lanzarote, Espanha e agora está no México - e, o segundo romance escrito por Saramago, depois do mal-sucedido Terra do pecado, Claraboia. Ainda tem nessa bagagem para sair o último texto em que trabalhava José, Alabardas! Alabardas!

Pilar tomou para si o domínio total do escritor português e a responsabilidade em zelar pela sua memória; entende ela que alguém permanece vivo quando é rotineiramente lembrado. "Se não o fizesse não seria digna de estar onde estou ... tenho uma vida de trabalho, porque é isso que devo à sociedade" - disse, certa vez, numa das muitas entrevistas dadas na imprensa.

E quem visita a página da Fundação, erguida ainda quando Saramago era vivo e a qual Pilar hoje preside, confirmará o que estou dizendo. Ela não se satisfaz com a entrada dele para o panteão dos imortais, porque isso ele próprio ainda conseguiu em vida. Não, para ela, Saramago há que está vivo, de boca em boca, feito mito e, quisto ou não quisto, deve ser lido em qualquer parte do mundo. Daí também a quantidade de traduções do autor que se multiplicam a uma velocidade significativa. Tome-se A viagem do elefante já em quase quatro dezenas de línguas diferentes, ou ainda a quantidade de adaptações para diversas outras manifestações artísticas em Estados Unidos, México, Espanha, ou os dois anúncios recentes de que ao modo de A jangada de pedra e de Ensaio sobre a cegueira também subirão para a sétima arte O evangelho segundo Jesus Cristo e O homem duplicado, fora as reedições que os livros do autor português vão tendo.

É muito. Não me guio pelos números, mas se fôssemos por aqui na ponta da caneta os cálculos veríamos que Pilar já tem feito mais que as rotas de peregrinação da Blimunda, em Memorial do convento, quando tem notícias do desaparecimento de seu homem, Baltazar, e sai a vagar por Portugal inteira à sua procura. 

***

Falando em peregrinação, depois de transformar a casa de Lanzarote em espaço de passagem, ponto de parada a qualquer viajante e, sobretudo, a qualquer saramaguiano, a Fundação José Saramago está nos preparativos para a inauguração da sua sede em Lisboa. A histórica Casa dos Bicos foi entregue em novembro do ano passado em cerimônia que rememorou os anos de aniversário do escritor português. Mas, a real inauguração deverá ocorrer no mês próximo. O evento será marcado com uma nova exposição - A semente e os frutos, também comandada pelo Fernando Gomes Aguillera. A exposição terá uma vertente multimídia e revelará novos manuscritos de Saramago e os milhares de exemplares das diferentes traduções que têm sido feitas nos últimos anos da sua obra.


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