Paraísos artificiais, de Marcos Prado



A arte não é livre de propósitos para com o meio do qual ela emerge. E dentre todas as possibilidades deve zelar por uma: fazer ver o que somos, no que nos tornamos e no que poderemos ser. Todas essas três possibilidades faz dela elemento essencial para a manutenção da própria existência humana tal como conhecemos. 

Pode ser que Paraísos artificiais, de Marcos Prado não seja nenhum grande filme de revolução estética, cobrança cara, aliás, para quem já produziu fenômenos de público como Tropa de Elite. Mas, a reflexão que este filme pode levar o telespectador é única e começa por uma pergunta: no que vimos nos tornando ou o que temos nos tornado depois que alcançamos a ideia de liberdade plena? 

A resposta a essas perguntas é o que se vê na tela. Usando do movimento não linear da narrativa, o filme acompanha em primeiro lance duas importantes ações: uma, demarcando o fim de uma trajetória de uma das personagens, outra, o seu contrário. A primeira dá contas da saída de Nando da prisão. A segunda dá contas da saída do irmão de Nando para a rua. O restante estaremos imersos em muito fluxo de consciência, primeiro de Nando, que faz um apanhado mental de toda a sua trajetória até à prisão e depois da Dj Erika que aparece no andamento da narrativa. Ambas personagens estiveram há algum tempo numa dessas raves, tiveram um encontro casual à base de um universo de drogas sintéticas. Ambas personagens se reencontram em Amsterdã e desenvolvem um curto encontro amoroso cheio de segredos dos dois lados: ele está como mula de um exportador de drogas, ela está como Dj e garota de programa e tem sustentar o seu filho. 

De Amsterdã ao nordeste do Brasil (terra de origem de Erika e onde ela tem o primeiro encontro com Nando), o telespectador está diante de um universo sintético regado pelo sintetismo de formas humanas e, o modo como essa atmosfera ficcional está engendrada será capaz de nos levar ao efeito entorpecente comum dos espaços que frequentamos com festas e gente jovem. 

O filme é passível de uma série de observações, mas vou reduzir esse conjunto a duas falas de duas personagens: a da mãe de Nando que, desacreditada da conduta do segundo filho que vai seguindo o mesmo caminho mal traçado do primeiro, diz - "Talvez seu irmão tenha razão, eu passei muito a mão na cabeça de vocês". E a da personagem do Rony Villela que se mostra na narrativa como espécie de guru de todos os que dele se aproximam: "Não são as drogas o mal, é as que as pessoas não sabem o que querem". Evidente que essas vozes não são transcritas ipsis literis ao que se vê no filme, mas a ideia principal do que elas evocam estão aí preservadas.

A primeira fala aponta uma direção e é mesmo o reconhecimento por parte de uma representante da classe que deu e dá origem à leva dos jovens contemporâneos. O facilitismo e a preservação excessiva dos filhos têm feito da sociedade uma nave sem rumo e crente de que é possível se dá bem a todo custo e sem umas libras de esforço e dedicação. Evidente que há outras catástrofes sociais que contribuem para esse estágio social, mas tudo passa, em primeiro plano, pela base de qualquer pessoa: a educação, esta que a grande maioria dos pais acredita e por isso mesmo deposita toda a tarefa às escolas, esquecendo-se que o principal dessa formação só pode vir deles próprios. Nando é resultado de uma geração que teve tudo ao alcance e, diante das dificuldades acenadas como a perda do pai, resolve, por uma via mais fácil se livrar desse caminho por um que lhe leva aos quatro anos numa prisão.

A segunda fala chama atenção para o atual estágio em que se encontra o debate em torno das drogas e com vistas à aprovação de uma liberalização do consumo de maconha, por exemplo. De fato, se olharmos com atenção encontraremos o sentido para o que ela evoca. Liberalizar? Sim. Mas, essa não seria a questão a ser pensada agora e a liberalização não resolveria o problema social das drogas. Afinal, o mal não está nelas, mas em quem as consome. São esses sujeitos acostumados com uma facilitação das coisas, à cata de algo que os tire de suas frivolidades, esses sujeitos que não têm para si meta alguma e não conseguem ocupar-se com nada que lhe dê sentido porque para eles os sentidos não estão nesse plano, mas numa dimensão outra, impossível de alcançar. São nesses sujeitos em que reside o xis da questão. Até nisso encontro os laivos da religião: a ideia de buscar o sentido para vida numa dimensão sintética é reapropriação daquela de buscar um sentido superior para além do próprio homem. Mas, isso é plano para outro debate. Somente quando Nando reencontra-se com Erika que parece encontrar uma meta; somente quando seu irmão encontra-se com ela, já Dj de sucesso no Brasil e ele sua fã, que ele repensa o rumo que tem dado à sua vida. Está aí uma aposta romântica sugerida pelo filme, mas que, cumpre com a ideia de que todos necessitamos de um objetivo para encontrar sentido para nossa existência e este objetivo não está algures, mas próximo ou mesmo na vida que temos, afinal, somos os responsáveis únicos e exclusivos por sua condução.

O fato é que Paraísos artificiais cumprem bem o seu papel enquanto objeto artístico e deveria ser um filme visto pelo mesmo público frívolo que não consegue ocupar-se em alguma coisa que faça sentido próprio para si e para o bem comum e lota as salas de visuals effects como Os vingadores.



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Cinco livros para conhecer a obra de William Faulkner

Os melhores diários de escritores

Essa estranha instituição chamada literatura: uma conversa com Jacques Derrida

Lolita, amor e perversão

O conto da aia, o pesadelo de ser mulher numa teocracia

Os ventos (e outros contos), de Eudora Welty

O primeiro conto de Ernest Hemingway

Há muitos Faulkner

Kazuo Ishiguro, Prêmio Nobel de Literatura 2017

Boletim Letras 360º #239