Eu nasci assim, eu cresci assim

Jorge Amado trabalhando no romance Gabriela, cravo e canela enquanto Carlos Scliar faz seu retrato. Fonte: Cia das Letras


Não foi o primeiro romance de Jorge Amado, mas é talvez o mais conhecido entre os leitores. Na verdade, nem sempre os primeiros livros são os que fazem sucesso. Foi sim o primeiro livro escrito depois que o romancista deixou o Partido Comunista e é tido pela crítica com um texto que inaugura na sua obra uma nova fase. 

Não é mais o conteúdo político que se lê nos primeiros livros o que se encontra agora, mas temas voltados à formação racial brasileira, o universo dos jagunços, coroneis, prostitutas e trambiqueiros, todos ansiando progressos numa região que oferecem a eles esse sentido. Está no centro a sensualidade e o erotismo das personagens femininas, a folia, o sexo fácil. O espaço privilegiado para a trama não é mais o urbano de Salvador, mas a região de Ilhéus, que com o auge do cacau tem uma intensa vida noturna entre bares e cabarés. 

O romance, como uma crônica de costumes,  situa o leitor diante da pulsante vida social de outra Bahia, a dos anos 1920. Fora esses detalhes, a obra não se caracteriza por nada mais que um traçado sexual e amoroso de Gabriela. 

Gabriela, a personagem que nomeia o livro, Gabriela, cravo e canela é uma mulher vinda do agreste para Ilhéus, como retirante. O árabe Nacib é quem a leva ao mercado dos escravos, que é o lugar para vão acampar todos os retirants que chegam à cidade, indo prestar favores de cozinha no bar Vesúvio. Como Gabriela toda transpira sensualidade num ferormônio à cravo, não tardará que todos os homens da redondeza se sintam atraídos por ela. 

Por ser seu "achado" e sentido-se na obrigação de preservá-la como sua, Nacib, tomado de ciúmes pela moça, decide por casar-se com ela. Suas obrigações agora serão outras, cuidar de casa e cozinha apenas do árabe. É quando Gabriela, sentindo-se presa, compõe os casos amorosos. Mas, mesmo sendo flagrada na cama com um tal de Tonico Bastos e tendo o casamento anulado, Nacib insiste em tê-la cozinheira e prestadora de seus serviços sexuais.

Gabriela por Di Cavalcanti. Ilustração composta para a primeira edição do romance de Jorge Amado


O livro, que foi concluído em Petrópolis, no Rio de Janeiro, em 1958, e teve sua primeira edição lançada pela Martins Editora, de São Paulo, com ilustrações de Di Cavalcanti. Nas duas primeiras semanas do lançamento, a obra já havia alcançado a marca dos 20 mil exemplares vendidos e alcançou uma 6ª edição ainda no ano de publicação, com 50 mil livros comercializados. No ano seguinte, levou cinco prêmios literários, entre eles o Prêmio Machado de Assis e o Prêmio Jabuti e em 1961, foi marca responsável, certamente, por conduzir Jorge Amado a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. Gabriela está traduzido em mais trinta línguas e é o livro de Jorge com maior número de traduções.

Teve sua primeira adaptação para a TV, também em 1961, como novela para a TV Tupi; em 1975, também como novela, foi readaptada para a TV Globo. Foi nela, que Sônia Braga popularizou a personagem a ponto de revivê-la no cinema, em 1983, num filme de Bruno Barreto. Já tema de dança, artes plásticas, teatro, o romance recebe agora em 2012, pelo centenário do seu autor, mais uma adaptação para a TV: dessa vez como minissérie, cuja adaptação coube a Walcyr Carrasco.

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