Os 60 anos de 10 dias de uma viagem que deu novos rumos à Literatura Brasileira

Por Pedro Fernandes

Já até ensaiei por aqui os passos de curta leitura sobre literatura e viagem. Ambas têm uma proximidade bastante significativa. Não apenas se entendermos que todo livro é, por natureza uma viagem, mas se dermos conta de que muitos livros nasceram da experiência de uma. O caso mais expressivo, lembrarão uns, é do escritor Jack Kerouac que enquanto viaja pelo seu país, os Estados Unidos, ia dando forma à produção de seu romance mais famoso, On the road. Eu lembrarei aqui de José Saramago que contratado para escrever um guia de Portugal, escreve Viagem a Portugal. E não será exagero dizer que tenha sido o livro e a viagem empreendida para sua composição o roteiro para elaboração de suas primeiras obras: Levantado do chão, o livro que sai no ano do Viagem é resultado da sua estadia entre os camponeses do Alentejo, Memorial do convento de uma de suas idas a Mafra, passagens de O ano da morte de Ricardo Reis de sua ida a Fátima e seguem-se.

Agora em 2012, há uma dessas viagens importantes para rumo da escrita, e no caso aqui tratado importante para o rumo da literatura de país que completa mais uma década, fechando o ciclo de 60 anos. Trata-se da viagem empreendida por Guimarães Rosa pelo sertão de Minas Gerais e da qual resultaria os livros Grande sertão: veredas e Corpo de baile. O primeiro, obra-prima e clássica da Literatura Brasileira.

Imagem de O cruzeiro. Em junho de 1952, a revista trazia publicado o itinerário de Guimarães Rosa pelo sertão de Minas Gerais. Já em 1945, o escritor fizera uma viagem pelo interior do estado mineiro; depois, em 1947, pelo Pantanal.

A viagem aparece mencionada ainda em março de 1952, numa carta ao amigo Mário Calábria, cônsul do Brasil em Munique:
“Você vai para Roma, minha branda inveja esvoaça. Quando ouço ou penso Itália, minhalma se prostra... Mas amo também outras regiões, mais ásperas. Prova? Estou-me preparando para, daqui a dias, ir acompanhar, rústica, árdua, autenticamente, uma boiada brava, em percurso de 40 léguas, lá do sertão sagarânico, da fazenda da Sirga – entre buritizais belíssimos e chapadões de matagal inviolado – até a fazenda São Francisco, de um meu primo, lá perto de Cordisburgo. Já ando nos preparativos, arrumando mochila, cantil, roupa, cáqui, pois serão 15 dias no ermo, a carne seca com farinha-de-mandioca e café com rapadura, sob sol, poeira, lama e chuva.”
Guimarães Rosa no acampamento com os vaqueiros durante a viagem de 1952. Imagem de Eugênio Silva/ O cruzeiro.

A viagem de Guimarães Rosa foi em maio, de dez dias, entre 19 e 28, no mesmo ano da carta. Rosa viaja do Rio de Janeiro até Belo Horizonte e segue de trem para Cordisburgo, depois segue de carro até Paraopeba e daí para a fazenda Sirga, localizada acerca a 20 quilômetros de Três Marias; e, ao invés de descer o rio das Velhas de canoa, como tinha sido planejado, o escritor decide ir com o grupo de vaqueiros. No itinerário, o então médico e já escritor – ele já havia publicado o conjunto de contos Sagarana, em 1946 – a partir do contato com a gente, suas histórias e modo de vida, vai modelando personagens como Manuelzão, um dos mais conhecidos do Grande sertão. O percurso feito em lombo de mula foi de 240 quilômetros indo dessa fazenda à fazenda São Francisco, município de Araçaí.

Guimarães Rosa em fazenda no interior de Minas Gerais, na viagem que o escritor realizou com o grupo de vaqueiros, em 1952. Reprodução de Cadernos da Literatura Brasileira, edições 20-21, dedicadas a Guimarães Rosa.

A personagem do Manuelzão é transliteração de Manuel Nardi, vaqueiro que liderava a trupe de oito boiadeiros que arrebanhava cerca de 600 cabeças de gado no trajeto. Ele foi uma espécie guia do escritor. Os detalhes do percurso, espécie de diário, iam sendo anotados em cadernetas que Guimarães Rosa mantinha pendurada no pescoço. Os nomes das vacas e bois, a realidade geográfica e natural do sertão, as cores, os cheiros, os sons, tudo aí são registrados; juntos dão forma ao percurso feito pelo grupo. As cadernetas foram batizadas pelo próprio escritor de “A saída” e “A boiada” ao transcrevê-las em datilografia e em 2011 ganharam uma versão em livro.

Em 2003, foi criado o Circuito Guimarães Rosa. O mapa se refere aos trajetos e lugares por onde transitou o escritor na viagem de 1952 e os principais lugares mencionados na sua obra.


Muito antes, em junho do mesmo ano em que a viagem foi feita, sai na revista O cruzeiro uma longa reportagem sobre a viagem com a boiada, ilustrada com fotos do escritor e dos vaqueiros. A viagem ainda lhe renderia uma nova incursão pelo mundo dos vaqueiros culminando na participação de uma grande vaquejada no mesmo mês de junho em Caldas do Cipó, no sertão da Bahia em companhia de Assis Chateaubriand e do presidente Getúlio Vargas. A partir percurso foi escrito o texto “Mensagem da ordem do vaqueiro: pé-duro, chapéu-de-couro”, publicado no O jornal, no final do ano. O texto será republicado depois em Ave, palavra, quando escritor conclui a leitura de Os sertões, de Euclides da Cunha, outro livro da literatura brasileira que tem na viagem sua gênese. As notas referentes a essa viagem à Bahia, bem como de uma feita pelo Pantanal, em 1947 e outras pelo interior de Minas Gerais em 1945 até agora são dadas por perdidas.

Notas: O trecho de carta recuperado neste post integra os Cadernos da Literatura Brasileira.
 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Cinco livros para conhecer a obra de William Faulkner

Essa estranha instituição chamada literatura: uma conversa com Jacques Derrida

Os melhores diários de escritores

Lolita, amor e perversão

O conto da aia, o pesadelo de ser mulher numa teocracia

Os ventos (e outros contos), de Eudora Welty

O primeiro conto de Ernest Hemingway

Há muitos Faulkner

Kazuo Ishiguro, Prêmio Nobel de Literatura 2017

Boletim Letras 360º #239