Pulp fiction - tempo de violência, de Quentin Tarantino




O liquidificar Tarantino mistura influências e humor negro para compor obra que gerou várias imitações

Grande sensação da indústria norte-americana do fim do século 20, Quentin Tarantino sempre chamou mais atenção pelo que representa do que pelo que é. Afinal, não se trata de nenhum gênio, e a idéia é exatamente essa. Ele é apenas um ex-atendente de videolocadora que resolveu fazer filmes, sem qualquer preparo técnico ou passagem por universidades de cinema, mas com muita paixão e um conhecimento enciclopédico de dados e informações sobre os clássicos do passado. Pegue esse background e jogue em um liquidificador com algumas de suas fixações pessoais e processe: quadrinhos, videogames, seriados de televisão, filmes obscuros de ação e orientais de kung-fu, westerns, revistas baratas de histórias policiais e referências à cultura pop.

Graças a esse espírito diletante e à variedade de influências, Tarantino conseguiu a façanha de produzir uma das obras mais cultuadas e influentes dos últimos anos. De tanto misturar ingredientes distintos, o resultado acaba sendo original. Pulp fiction - tempo de violência é seu trabalho mais conhecido, lançado dois anos depois da promissora estréia com Cães de aluguel (1992). Logo saltam aos olhos o roteiro e a edição, ambos não-lineares, uma estrutura de cenas que se repetem a Rashomon (1950), de Akira Korosawa, e O grande golpe (1956), de Stanley Kubrik.

O enredo é composto de várias tramas paralelas: dois matadores (John Travolta, num papel que ressucitou sua carreira, e Samuel L. Jackson) cobram dívidas para um mafioso (e um deles se envolve com a esposa viciada do chefe, Uma Thurman); um ex-boxeador foge do compromisso de perder uma luta; dois assaltantes invdem um pequeno café (Tim Roth e Amanda Plummer). Preste atenção na maneira inteligente com que Tarantino cruza as histórias. E nos diálogos ágeis e surreais, como a conversa entre Travolta e Jackson, que começa com McDonald's e termina em massagem no pé.

Pulp fiction gerou uma infinidade de imitadores, nenhum à altura do original. Foi indicado a sete Oscar e ganhou apenas um, de Roteiro Original. Também saiu premiado com a Palma de Ouro de Melhor Filme no Festival de Cannes.

* Revista Bravo!, 2007, p.86

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