Prometheus, de Ridley Scott

Por Pedro Fernandes

Michael Fassbender, na pele do robô David; sua personagem está para além da necessidade de sobrevivência, pela simples razão de está condenada a imortalidade. O simples fato lhe dá a capacidade de, sozinho, chegar ao cerne de tudo, afinal numa aventura em que os humanos, seus criadores, estão à cata de saber de si, David quer saber também dos outros para aprender a ser ele próprio.

As chamadas para Prometheus deixaram, certamente, muitos expectadores como eu, em suspense, à cata dos dias pela chegada do filme ao cinema. Um Ridley Scott verdadeiro, desde Alien ou Blade Runner se anunciava. Ainda dei com dois trailers fora do normal, denunciando uma grandiosidade para além do normal. Agora, o suspense desfeito, já alerto: não estamos diante de grande coisa. Tudo e todos têm seu limite e o da ficção científica de Scott parece ter findado mesmo nos idos 1980. Ainda assim, acalmo: não estará o telespectador diante de um trabalho em vão. Prometheus foi produzido numa era um tanto quanto mais sofisticada do cinema e o seu criador soube explorar com maestria os recursos que tem ao seu alcance, muito embora o jeito Ridley Scott de ser não tenha desprezado a montagem de grandes sets originais para a gravação do filme. O diretor mesmo disse que gosta que seus atores transmitam para o público o máximo de realismo quando o assunto diz respeito às suas reações frente a determinadas situações. 

Esse filme se monta por sobre uma dimensão filosófica que, mesmo se perdendo no correr do filme em detrimento das cenas de ação - e dos meados para o fim da narrativa são muitas - não deixará o telespectador sair do cinema intrigado com ela. De onde viemos? Onde está nossa origem? Quem nos criou? É esse questionamento aliás que fará um grupo de cientistas chefiados por um rico bilionário a sair numa missão espacial crentes de que terão achado a resposta para o grande enigma: parte do grupo leva consigo a tese, depois de juntar achados que lhe guia como mapa para uma chave do problema da existência, o rico bilionário quer - de posse da resposta - a cura para a velhice, e outro grupo está apenas no interesse do rateio dos lucros que viriam a ter com a descoberta. Num estágio da civilização humana em que a crença no divino reduz-se à crença na própria capacidade humana e no poder financeiro, Scott escolhe uma mulher, uma das cientistas do primeiro grupo, que leva consigo ainda certo apego a uma crença no poder superior, representado aí no espírito do cristianismo. Embora, pareça ingenuidade do diretor dispor a crença no divino como uma possível saída para o labirinto em que estamos metidos, é bom tomar certa cautela com essa possibilidade ou correremos o risco de taxar o filme como uma apologia à religião.

Mas, antes da saída do grupo nesta aventura interplanetária, como parentes do Ulisses de Homero, contra o destino divino e à cata do seu criador, o gesto da criação, aquele do criado à imagem e semelhança do criador, aparece renovado: um dos últimos sobreviventes extraterrestre, sacrifica-se diante de uma cachoeira e do seu material genético se formará toda a raça humana. 

Prometheus é o nome dado à missão, e está representado na nave. Na mitologia grega é um titã do conhecimento, é quem rouba o fogo de Zeus para dá-lo aos humanos mortais. A punição pelo crime é ficar amarrado a uma pedra durante toda a eternidade enquanto uma águia todos os dias vem comer seu fígado. Logo, o destino a que as personagens do filme de Scott deverão padecer ajusta-se ao sofrimento eterno do titã, porque a viagem empreendida será sem retorno. O rompimento das crenças e do limite da suprema capacidade humana desencadeará a fúria do criador que está agora decidido pelo fim da civilização pela qual se sacrificou no início dos tempos. O grupo assume a dimensão de Pandora. Tocar o desconhecido e despertar todo mal adormecido. O fim último da expedição rumo a origem é também o de uma viagem em torno do conhecimento de si próprios, uma vez que, além de si, nada é mais intrigante e paradisíaco. 

Mas, o mais irônico em tudo: as descobertas há tanto ansiadas pelo homem será feita não diretamente pela colônia de cientistas, mas pelo robô David (vivido por Michael Fassbender e lido pela crítica com um dos melhores papéis do filme). David pode ser lido como uma espécie de espelho de nós mesmos e para o qual todos não querem olhar. Rica de individualismo, num mundo próprio, moldado pelos humanos, mas depois adequada a seu modo humanoide. É, no entanto, a criatura que tem no contato direto com os humanos uma relação que o coloca em subordinação, como o homem diante de Deus. O homem, nesse caso, assume a figura de Deus para David, no mesmo instante que é seu próprio Édipo. Criatura condenada a imortalidade e sem entender ao certo a fixação do grupo em saber a origem de tudo, David quer que o humano também experimente a qualidade da imortalidade para que perceba o quão necessária é a morte para a existência e incorpora a necessidade de descobrir o superior dos homens, para que estes entendam o seu próprio lugar enquanto criatura próxima do seu criador.

A viagem do grupo em busca da sua origem é também a viagem do próprio Scott em busca das origens do  Alien. O diretor busca nas limitações do tempo que criou a personagem e amplifica-lhe o horror, afinal os tempos do cinema são outros e agora tudo é mais vivo e mais forte, possui tentáculos e se deixa não morrer pela capacidade de se mutabilizar. Se Alien é a representação dos monstros que carregamos dentro de nós próprios, os monstros hoje também se tornaram mais fortes.

No mais: se o que todos buscam é pela resposta pela começo de tudo, Prometheus não está interessado em tomar um caminho seguro para esclarecer essa dúvida, porque essa pergunta existencial talvez seja a única que ainda nos sustente vivos no mundo. Parece mais sensato, fazer escolhas e decidir crer naquilo que melhor lhe convém, referendado no filme pela fé inabalável da heroína e seu apego extremado num crucifixo herdado do pai. Talvez seja a fé ou a crença numa existência acima do próprio homem o que faça, primeiro, ser homem, segundo, a levar, ainda que pareça impossível, a luta pela sobrevivência acima de todas as coisas. Num instante em que razão e crença se digladiam, o filme vem alertar que é da combinação entre os polos de onde pode vir uma resposta para o entendimento daquilo que somos no mundo. E já será o suficiente.

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