Uivo, de Allen Ginsberg

Por Pedro Fernandes


Ilustração de Eric Drooker para uma edição de Uivo em HQ

Devo retomar no início deste texto uma fala do jornalista, poeta e escritor José de Paiva Rebouças para uma palestra na qual compus mesa ao lado da também poeta Nina Rizzi, isso por ocasião da Feira do Livro de Mossoró deste ano. Depois de ler um poema de Castro Alves, Paiva confessou do inquietamento e de até certa desilusão ou o desafio que determinados poetas impõem para quem lida com a palavra: aquela sensação que padecemos de limitação que se guia pelo entendimento “se alguém escreve uma coisa desse tipo como eu poderei superá-lo ou sobreviver depois disso?”. Essa confissão de Paiva dialoga perfeitamente com muitos dos momentos de leitor que tenho vivido ao longo de minha curta trajetória. E repetiu-se quando, recentemente, dei com um poema de um poeta até então desconhecido para mim, Allen Ginsberg. O poema foi traduzido pelo título de “Uivo” e pode ser lido aqui.

Indo para as terras do sem fim, a web, eu descubro que este foi um texto que casou certo rebuliço quando publicado pela primeira vez, em 1956, pelo tom de advertência corajosa para o lado sombrio da América, recuperando os termos utilizados por William Carlos Williams, citado num artigo para o Open Culture, de onde extraio o andamento destas notas que agora se publicam. Também descubro que em 2010, Rob Epstein e Jeffrey Friedman fez um filme para examinar os eventos que cercaram a criação do poema e sua recepção, com James Franco no elenco vivendo o próprio Ginsberg. O filme foi batizado pelo mesmo título do poema em inglês, Howl, e o Newsweek, chamou o trabalho de “uma resposta a uma obra de arte que é a própria arte”, numa tradução minha muito ao pé da letra.

Não vi o filme, mas o Open Culture recuperou um instante que está disponível no Youtube que é a versão animada do próprio poema. A sequência foi projetada por Eric Drooker, um amigo de Ginsberg que se popularizou por suas capas para a The New Yorker. Drooker conheceu o poeta no verão de 1988, período de intensa agitação em Manhattan, quando a polícia saiu às ruas em repressão aos punks que ocupavam o Tompkins Square Park. Os dois contribuíram em vários projetos, incluindo o último livro de Ginsberg. No Brasil, a editora Globo, publicou recentemente o poema em formato de HQ com ilustrações de, adivinhem?, o próprio Eric Drooker. Uma delas, está ilustrando este texto.

Vou deixar disponibilizado aqui a primeira parte da animação que é narrada pela voz de James Franco. A sequência pode ser acompanhada nos links abaixo. Como são sete vídeos isso sobrecarregaria a página do blog. Abaixo dos links deixo um vídeo com áudio do próprio Ginsberg recitando o poema. Infelizmente não encontrei nenhum dos vídeos com legendas; terão de exercitar o inglês. Boa sessão!

Parte I





E o poema recitado pelo próprio Allen Ginsberg



Uivo foi publicado em 1956 e teve prefácio do poeta William Carlos Williams. E desde quando foi publicado tornou-se a obra poética mais significativa da chamada Geração Beat, ao lado de Naked lunch, de William S. Burroughs (1959) e On the road, de Jack Kerouac (1957). No Brasil, a obra recebeu a primeira tradução em 1982 por Cláudio Willer.

A primeira vez que o seu autor leu parte do poema publicamente foi a convite do poeta Kenneth Rexroth que havia recebido a incumbência do pintor Wally Hedrick, então diretor da Six Gallery, uma galeria de arte, em São Francisco, para uma noite de poesia. Foi também a primeira vez que Ginsberg venceu a timidez para as leituras públicas, muitas depois desta.

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