Um evento feliz, de Rémi Benzançon

Por Pedro Fernandes




“Ele me estimulou, me fez ultrapassar meus limites, me confrontou ao absoluto: do amor, do sacrifício, da ternura, do abandono. Ela me deslocou, me transformou. Por que ninguém me disse nada? Por que não se fala nisso?”

A fala é da personagem principal de Um evento feliz, uma aproximação masculina porque o filme é dirigido por um homem de um evento eminentemente feminino: a maternidade. Não que o homem esteja ausente da experiência. Pelo menos no filme não, ele está muito presente. Mas que, disso já sabíamos, ter um filho é um dos fenômenos naturais mais completos e complexos. Ainda mais quando se incorporam às transformações corporais da mulher um lastro de outras questões, externas, mas que contribuem para aquela ideia de independência tão almejada, nos dias de hoje, por todos.

Além de acompanhar de perto a chegada de Léa num casal principiante no mundo da maternidade, Rémi Benzançon quer pensar os novos parâmetros para esse lugar chamado família que, já desde os pais de Barbara e Nicolas – o casal em questão – tem passado pelas transformações que passou. Chama atenção aqui, além do ato de ser mãe, a carga imposta às mulheres em conciliar sucesso profissional e gestar e cuidar de uma criança.

Partindo da premissa de que, apesar de ser a maternidade um episódio pelo qual boa parte das mulheres vivenciam, mas pouco se discute, seja no ambiente escolar, seja no familiar, Barbara e Nicolas farão do acontecimento não apenas uma grande aventura para muitas descobertas sobre si e sobre o outro como vem cobrar por uma necessidade de comunicação mais efetiva sobre o sentido de ser mãe e pai. Está em questão uma reviravolta na vida social, profissional e pessoal de cada um dos envolvidos que, somente os que experienciam o ato entendem devidamente o sentido de que um filho muda completamente toda a existência dos indivíduos. Ter um filho não é algo assim tão simples e belo como terá pensado muitas mães e pais.

Remi Benzaçon não tem pena de ir até o limite da experiência, sem ser meramente dramático, já que muitas das situações do tipo são coloridas pelo tom humorístico, sem ser meramente romântico, porque tem muito de realismo no desenvolvimento das cenas, mas buscando levantar o mais acertado grau do acontecimento tanto para o maior envolvido no ato, a mãe, quanto para o pai, compondo deste modo, um filme, que não escolhe público: tanto os casais com filhos de primeira viagem entenderão, como os que já passaram por isso, como ainda os que nunca irão passar por isso, afinal, todos somos frutos do mesmo gesto de maternidade, com mais ou menos acentuado drama ou humor.

O filme foi baseado no livro de Éliete Abécassis, Un hereux évément, até onde sei, ainda sem traduções aqui no Brasil.


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