A culpa como tema na literatura

Cena de Raskolnikov, de Robert Wine, 1993. O filme é uma adaptação de Crime e castigo, clássico da culpa na literatura.

Haverá, sem dúvidas, muitas obras literárias que deram enforme artístico à culpa – sentimento em voga já na literatura bíblica, por exemplo. Longe de querer esgotar o assunto ou mesmo me deter profundamente sobre o caso, quero, ainda que superficialmente, registrar esse tema como um dos mais promissores nas artes.

Dois autores, no rol dos que já tive oportunidade de ler colocaram no seu extremo de obras esse sentimento: José Saramago e Dostoiévski. Do primeiro, cito o seu O evangelho segundo Jesus Cristo e, do segundo Crime e castigo, para não esquecer dois principais trabalhos que, no âmbito da produção dos dois autores, são obras principais e, no âmbito universal, são obras clássicas.

NO evangelho, a culpa é manifestada pela via oposta, ou o lugar contrário do que esperaríamos; não será Deus, o topo poderoso e cego pela ideia de expansão de seu nome e do seu império na terra, quem carregará consigo a culpa pelas atitudes individualistas, mesquinhas e agressivas que tomará no futuro da humanidade a começar por levar a cruz um inocente. Não. Mas, José, o pai de Jesus, este sim, levará o fardo sobre ombros pela atitude tão individualista quanto a do Criador em não avisar para os da sua comunidade dos planos de matança das crianças pelo rei Herodes. Também o filho, depois de lhe herdar as sandálias, levará consigo o sentimento que só terá caminho para sua acentuação na medida em que se aproxima da cruz. O humanismo de Jesus neste romance é capaz de fazer do sentimento da culpa uma linha que interliga o passado ao futuro, ocupando o lugar de quem leva as dores de toda existência.

Já em Crime e castigo, Raskolnikov, decidido que a velha, proprietária do espaço onde mora, não tem nenhuma ‘serventia’ social, a assassina e, depois se consome pela culpa transmutada no medo em ser reconhecido como o feitor do ato. Nessa esteira dos crimes, A sangue frio, de Truman Capote também faz uma incursão pelas sendas da culpa. Lembra-me ainda o Macbeth, de Shakespeare. Embora naquele caso do escritor estadunidense parece prevalecer certa ‘imposição’ do narrador em levar que o leitor se decida pela inocência dos culpados, caso, por exemplo, que não se justifica nos dois primeiros romances e nem na peça shakespeariana. Saramago, Dostoiévski  assim como Shakespeare conhecem bem a natureza humana e sabe que ela não se guia por fendas dicotômicas, mas tem, no mínimo, uma dupla face que não chega a ser claramente determinada. Os dois clássicos estão guiados pela sentença aristotélica de que “as coisas são como são” e cabe ao escritor, sim, saber como que elas são o que são, mas não apontar um divisor.

Por falar nesse lugar tão específico da literatura, eu não poderia deixar de citar, para alargamento do tema, um importante livro publicado em 2007, do escritor Moacyr Scliar, e que se chama Enigmas da culpa. Classificado como ensaio filosófico, é a obra para se ler, como terá dito boa parte das resenhas publicadas em torno do livro, é algo que se pode ler fora dos bancos acadêmicos, mas cuidado, pela leva de textos citados, não deve esquecer o leitor de fazer uma lista paralela de obras a título de melhor esclarecer os Enigmas.

As representações da culpa estão para a literatura como o lugar para, em grande parte, a composição do drama do silenciamento do subalterno. 



Comentários

realmente esta paagina letras in. verso e re. verso me surpreende com as novidades.na sua criaçao. de conteudos importantes. pra o meu conhecimento. que sao necessarios. no meu aprendizado. e. muito bom.
obrigado pela atençao. para conmigo. em aceitar o meu comentario.

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