As várias faces de "Alice no país das maravilhas" - Parte 2


Só recebemos as imagens compostas por Salvador Dalí para o clássico de Lewis Carroll por este ano. Graças à iniciativa da William Bennett Galllery.

A obra foi publicada em 1969 pela Maecenas Press-Random House, uma editora de Nova York, que vendeu a obra como o livro de destaque do mês.

No total são treze ilustrações, uma para cada capítulo da obra, sendo a primeira apresentada ainda como rascunho no frontispício. A obra de abertura, que leva o nome do livro, seria terminada com guache em 1974 e depois reproduzida numa escultura de bronze de 1984.

Salvador Dalí e Walt Disney

Convém lembrar aqui que Walt Disney, que elegeu Alice para o seu primeiro projeto de longa-metragem nos cinemas desde quando foi para Hollywood, em 1923, recebeu a significativa colaboração inicial do próprio Salvador Dalí para o trabalho. Devido aos atropelos, o pintor sairia em 1951, sem que o seu nome fosse para os créditos: o rompimento entre Disney e Dalí se deu antes que o filme chegasse ao cinema e outro projeto ambicioso, chamado de “Destino” reataria os laços entre os dois, anos depois. O projeto visava recriar a obra original de Carroll, mas nunca chegou a ser concluído por eles.

A ideia de Dalí, que fora de início endossada por Walt Disney, era apresentar sequências que lembrariam sonhos (talvez muito próximo daquilo feito pelo artista no seu trabalho para ilustração). Quando morreram, o projeto “Destino” ainda chegou a ser retomado para fazer parte de “Fantasia 2000”. Mas, quando as equipes se debruçaram nos arquivos e storyboards do projeto, viram que os planos de Disney era retomar a literatura de Carroll com uma Alice adulta, envolvida em sonhos sobre as emoções do primeiro amor, enquanto Dalí pensava em inserir o deus Chronos como quem se apaixonava radicalmente pela menina.

Estávamos diante de dois filmes diferentes. O projeto foi simplificado e concluído em 2003 pelas mãos de Baker Bloodworth e pelo sobrinho de Walt Disney, Roy Edward Disney. Transformado num curta de seis minutos, dos quais, apenas foram aproveitados 18 segundos da ideia original, o filme chegou a ser indicado ao Oscar de Melhor Curta de Animação daquele ano, mas parece ter caído num silêncio, porque até hoje nunca foi lançado nos cinemas e nem em DVD.

O filme, entretanto, dividiu opiniões. Para alguns, trata-se de uma preciosidade que deixa transparecer nuances adultas presentes tanto em “Alice” quantos nas obras-primas atribuídas a Salvador Dalí e a Walt Disney; para outros, uma versão convencional e melancólica sobre um projeto que poderia ter atingido outras dimensões.

Dalí se aproximou de Disney depois de um jantar em 1945 na casa de Jack Warner, então chefe da Warner Brothers; pela época, Dalí trabalhava na sequência do pesadelo da personagem Gregory Peck em Spellbound, de Alfred Hitchcock, isto, como se vê, já depois de criações como Um cão andaluz, que foi de 1928 e A idade do ouro, de 1930, realizados em parceria com Luis Buñuel.

Em várias outras ocasiões, Dalí se aproximaria do universo engendrado por Lewis Carroll para Alice, como o documentário Impressões de Alta Mongólia, no qual apresenta a história sobre uma expedição em busca de cogumelos alucinógenos gigantes ou nas produções para os trabalhos de estilistas como Christian Dior e Elsa Schiaperelli, além da fotografia em parceria com Man Ray, Brassaï, Beaton e Philippe Halsman.

A série de ilustrações compostas para o livro de Carroll foi produzida em policromia num processo conhecido como heliogravura, em que a impressão das imagens é feita através de placas gravadas em baixo-relevo. A série foi descoberta nos arquivos que Dalí deixou na Catalunha, Espanha. Abaixo preparamos um catálogo com a reprodução dos trabalhos feita a partir do site da William Bannett Gallery.







No canal do Letras no Youtube (aqui), está disponível a animação produzida a partir do projeto rabiscado por Disney e Dalí.


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As informações que sustentam esta post foram do blog Semióticas.



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