Uma rua chamada pecado, de Elia Kazan



Adaptação de peça do dramaturgo Tennessee Williams revelou para o cinema talento mítico de Marlon Brando

Antes de cinema, Elia Kazan foi um homem de teatro. Desta origem, seus principais filmes herdaram uma admirável direção de atores (por suas mãos passaram os míticos Marlon Brando e James Dean) e a habilidade em reter o essencial da carga dramática, transferindo-a concentrada do palco para a tela. É o que mais chama a atenção no impressionante Uma rua chamada pecado, que tem por base o texto Um bonde chamado desejo, de Tennessee Williams.

Como hábito no universo do dramaturgo nascido no Mississipi, os personagens carregam valores fortes e enraizados, e o drama consiste externamente, no confronto entre eles e a sociedade, e, internamente, no conflito moral que acaba por lhes produzir crises psicológicas. É o que acontece a Blanche DuBois (cujo nome ressoa significados de pureza), centro da trama. Ela chega a Nova Orleans vinda do interior, e se hospeda na casa de Stella, sua irmã, a essa altura casada com o rude Stanley Kowalski (Marlon Brando). A convivência num espaço limitado vai trazer à tona o passado de Blanche, manchado de impurezas, e impedir que ela realize seus ideais românticos ao lado do patético Mitch (Karl Malden).

A princípio, Kazan relutou em filmar a peça, que já havia encenado com enorme sucesso anos antes na Broadway, julgando não ter nada a acrescentar a esse trabalho. Mas cedeu à insistência de Williams, que lhe implorou que dirigisse o filme. Uma das razões do apelo do dramaturgo foi o fato de Kazan ter revelado, a montagem teatral, os talentos de Brando no papel de Kowalshi. Apesar do ator sentir aversão pelas características do personagem, sua atuação lhe abriu as portas de Hollywood e deu a ele condições para construir um grande mito, feito de um misto de força bruta, fragilidade emocional e transpiração de sexualidade por cada poro. Além de Brando, o restante do elenco repetiu a distribuição da peça encenada por Kazan, com exceção de Vivien Leigh, que havia encarnado Blanche numa montagem em Londres, sob a direção de seu marido, o também ator Laurence Olivier.

O filme recebeu 12 indicações ao Oscar de 1952, das quais ficou com quatro, entre elas os prêmios de Melhor Atriz (Leigh) e de Melhores Ator (Karl Malden) e Atris (Kim Hunter) Coadjuvantes.

* Revista Bravo!, 2007, p.89.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Cinco livros para conhecer a obra de William Faulkner

Essa estranha instituição chamada literatura: uma conversa com Jacques Derrida

Os melhores diários de escritores

Lolita, amor e perversão

O conto da aia, o pesadelo de ser mulher numa teocracia

Os ventos (e outros contos), de Eudora Welty

A ignorância, de Milan Kundera

Há muitos Faulkner

Kazuo Ishiguro, Prêmio Nobel de Literatura 2017

Boletim Letras 360º #239