Ana Miranda





Primeiro foi Boca do inferno, agora Desmundo, romances que li com a voragem de quem está degustando uma boa leitura. E já com o primeiro senti estar diante de uma grande escritora. Só me estranhou e ainda estranha que não seja tão comentada nos círculos literários, não apenas pela rica e extensa obra que vem construindo, mas pela potencialidade de ser uma das melhores escritoras depois que se foram nomes como os de Clarice Lispector, Rachel de Queiroz.

Ana Miranda, apesar de ser traduzida para vários países; o dito Boca do inferno publicado em 1989 foi aclamado como um dos cem maiores romances em língua portuguesa do século XX e tem já edições, entre outros países, em Inglaterra, França, Estados Unidos, Alemanha, Espanha, Itália, Noruega, Holanda, Dinamarca, Argentina... além de ter sido, já que estamos falando de glórias, vencedor do Prêmio Jabuti. Ao que parece, ela é até bem quista entre os da academia, mas, volto ao meio literário e agora não sei não, sinto mais falta do seu nome ser lembrado.

E certa ausência de lembrança me incomoda porque Ana não tem sido artista de um feito só; ela também é poeta, aliás, gênero em que se iniciou com Anjos e demônios e Celebrações do ouro e com pelo menos mais dois livros do tipo – Prece a uma aldeia perdida e Que seja em segredo; várias publicações infanto-juvenis, como Casa do tesouro, Mig, o sentimental, Mig, o descobridor, Lig e a casa que ri, Lig e o gato de rabo complicado, entre outros; crônicas, Noturnos; tradutora, artista plástica, enfim, como se diz, uma artista completa.

Com Boca do inferno, seu romance de estreia, Ana Miranda, reinaugura a relação literatura-história e centra seu trabalho numa linguagem inovadora que quer num instante, a revivência do clássico e a redescoberta do próprio idioma. Sua obra tem trilhado pelo diálogo entre estéticas e autores diversos com o interesse de também ressignificar o que há tempos tem sido tomado apenas por um valor de culto que insiste na repetição. Além de Boca do inferno e Desmundo, que teve uma adaptação para o cinema em 2003, ela publicou A última quimera, Amrik, Dias & Dias, Yuxin, O retrato do rei, Clarice e Sem pecado.

A escritora nasceu em 1951, em Fortaleza, Ceará, e ainda com cinco anos de idade foi com a família para o Rio de Janeiro, onde morou por três anos; depois foi para Brasília, já que o pai, engenheiro, fora trabalhar na construção da cidade, morando cerca de dez anos por lá. Em 1969, volta ao Rio, onde conclui seus estudos em Artes e inicia uma série de trabalhos para o cinema, área onde atuou até 1976. Esteve como escritora visitante na Universidade de Satanford em 1997, depois nas universidades de Roma e Tor Vergata, seguindo para Yale e Dartmouth. Foi cronista na revista Caros Amigos, Correio Brasiliense, O Povo. Depois de mais cinco décadas longe de sua terra natal, ela retornou a Fortaleza, onde reside atualmente. Dos projetos que se prepara para publicar, dentro em breve, segundo nota publicada em maio deste ano no caderno Ilustrada é uma obra pela Leya sobre Xica da Silva, no seu misto de ficção e história.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Inferno provisório, de Luiz Ruffato

L’amour, de Michael Haneke

A religiosidade clandestina de Hermann Hesse

O Bovarismo como pedra de toque na obra de Lima Barreto

Rupi Kaur: poeta reconcilia o passado das mulheres indianas e transforma sua dor em tema universal

Como alguém se transforma num escritor? Dez notas sobre o primeiro livro

Entre a interdição e a plenitude: treze livros para o Orgulho Gay

Clara dos Anjos: a chaga dos anos 20

O progresso do amor, de Alice Munro

Apontamentos sobre alguns textos curtos de Tolstói