Clarice, e a pintura

Retrato de Clarice Lispector.
Desenho de Ceschiatti, datado de Paris, janeiro de 1947.


Em setembro de 2009, o Instituto Moreira Salles, no Rio de Janeiro, a partir de um conjunto de telas de Clarice Lispector, patentes no acervo da Fundação Casa Rui Barbosa, realizou uma exposição conjunta com 16 telas em guache feitas pela escritora em fins da década de 1970 e princípios da década seguinte. Neste mesmo ano, chegou às livrarias pela Editora da Universidade Federal de Minas Gerais o livro Retratos em Clarice Lispector - literatura, pintura e fotografia, resultado da tese de doutorado em Teoria da Literatura e Literatura Comparada de Ricardo Iannace, defendida na Universidade de São Paulo. Antes, o autor já havia publicado A leitora Clarice Lispector.

Ainda, nove anos antes, era publicado em Portugal, pela Universidade do Minho, a tese de doutorado de Carlos Mendes de Sousa, integralmente reeditada e publicada no Brasil este ano, pelo Instituto Moreira Salles, numa belíssima e caprichada edição. É ele quem, de posse das leituras de Natália Gotlib, já acena para a estreita relação que a pintura cumpriu com a escrita de Clarice Lispector. 

A partir desse conjunto de estudos ficamos sabendo da obsessão que a autor de A hora da estrela construiu sobre a arte de pintar; "Quem sabe escrevo por não saber pintar?" - questionou-se Clarice, certa vez, juntando-se, assim, a extensa galeria dos autores contemporâneos que buscou através de uma apropriação das artes visuais dá novas vias de sentido à palavra escrita. Para ela, o ato de pintar era, em primeiro lugar, algo relaxante: "Quanto ao fato de escrever, digo - se interessa a alguém - que estou desiludida. É que escrever não me trouxe o que eu queria, isto é, a paz. [...] O que me descontrai, por incrível que pareça, é pintar. Sem ser pintora de forma alguma, e sem aprender nenhuma técnica. [...] É relaxante e ao mesmo tempo excitante mexer com cores e formas sem compromisso com coisa alguma. É a coisa mais pura que faço." - se pronunciou outra vez, numa de suas conferências.

Numa dedicatória escrita a um de seus filhos, a escritora novamente reporta-se à nova dimensão que consegue alcançar pela pintura: "É uma libertação pintar. Liberta mais do que escrever." Numa tentativa de ajustar o trabalho da escrita ao da pintura, disse: "Acho que o processo criador de um pintor e do escritor são da mesma fonte. O texto deve se exprimir através de imagens e as imagens são feitas de luz, cores, figuras, perspectivas, volumes, sensações." Para Carlos Mendes Sousa, a relação de Clarice com a pintura esta no nível de refiguração da escrita, numa busca por um "abstracionismo lírico". Ao que Lúcia Helena Vianna, uma estudiosa dos quadros de Clarice, acrescenta, que em meados dos anos 1970, a escritora julgava ter perdido seu estilo de escrita e impunha à procura de um "outro modo de escrever, de uma nova linguagem." E vai, concomitante à produção de seus últimos livros, exercitando-se nas cores e isso vai sendo infiltrado no desenvolvimento das narrativas, como bem observa Sousa. 

A novidade é que para o ano de 2013, a Editora Rocco, que detém as publicações dos textos de Clarice, anseia publicar uma edição com o material plástico da escritora. Pois bem, enquanto o livro não vem e ainda como resquícios da data celebrada ontem, 10 de dezembro, o dia/hora de Clarice, preparamos um catálogo com reprodução dos trabalhos nesse outro território tão denso quanto o da escrita, o da pintura. 






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