"Contos reunidos", de João Antônio




Este é um autor brasileiro por se conhecer, certamente. Por duas razões: a primeira é o próprio desconhecimento por parte de grande maioria dos brasileiros; a segunda é a grande celebração que o autor tem entre os principais nomes da crítica literária nacional, como Alfredo Bosi, Tânia Macedo... O próprio Antonio Candido, assim já se pronunciou sobre: “João Antônio faz para as esferas malditas da sociedade urbana o que Guimarães Rosa fez para o mundo do sertão, isto é, elabora uma linguagem que parece brotar espontaneamente do meio em que é usada,mas na verdade se torna língua geral dos homens, por ser fruto de uma estilização eficiente”. Isso porque a ficção de João Antônio empresta a profundidade da filosofia e da teoria literária aos tipos marginais e os abandonados pela vida que povoam suas histórias, aí atuam personagens que estiveram boa parte de sua existência fora do elenco tradicional: o malandro, o menino de rua, a prostituta, o cafetão, o leão-de-chácara, o flanelinha, o informante da polícia e o traficante, e quase todos aí assumem a voz narrativa.

João Antônio nasceu em 27 de janeiro de 1937 e foi encontrado morto em sua casa no dia 1º de maio de 1996. Seu primeiro livro foi publicado em 1963 – Malagueta, Perus e Bacanaço, que conta a história de três malandros paulistas; com esse livro ganhou dois Prêmios Jabuti e foi traduzido para oito idiomas. Autor profícuo, depois do livro de estreia, João Antônio publicou mais vinte obras, entre elas, Leão de chácara (1975), Malhação de Judas (1976), Casa dos loucos (1978), O Calvário e porre do pingente Afonso Henriques de Lima Barreto (1979), Dedo-duro (1981) e Abraçado ao meu rancor (1986).

Para dar voz a personagens marginais, João Antônio foi não apenas um observador agudo mas um conhecedor apaixonado, que misturou a própria vida nos ambientes em que elas viviam, do botequim à zona do meretrício, da estação de subúrbio ao cais do porto, do salão de sinuca à favela.

João Antônio foi um mestre do conto na Literatura Nacional, como hoje é, por exemplo, Sérgio Sant’Anna. Uma das grandes novidades para fins de 2012 é que, pela primeira vez,e toda essa sua produção contística publicada em livros foi agora reunida num único volume, pelas mãos da Cosac Naify. Estão aí os já citados e já também publicados pela editora Leão de chácara, Dedo-duro, Abraçado ao meu rancor mais Malagueta, Perus e Bacanaço e Um herói sem paradeiro. A edição ainda agrupa dois outros contos dispersos e um inédito: “Um preso”, texto publicado pela primeira vez no jornal O tempo, em 1954, e que pode, portanto, ser considerado como a estreia literária do autor; “Bolo na garganta”, conto integrante da coletânea Meninão do caixote, de 1983; e o inédito “A um palmo acima dos joelhos”, que foi encontrado praticamente sem retoques entre os papéis do autor no arquivo da família e narra a primeira vivência amorosa de um menino.

O volume é completado com um conjunto de textos críticos sobre a obra de João Antônio; podem-se ler aí textos assinados por Antonio Candido, Jorge Amado, Paulo Rónai, Alfredo Bosi e Tânia Macedo.


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