Pelos 96 anos de Manoel de Barros



Hoje, 19/12, Manoel de Barros completa exatos 96 anos. Já desde o começo da manhã estivemos publicando fragmentos de O livro das ignorãças na nossa fan page no Facebook. Justa homenagem, é verdade. Mas, ao revirar alguns livros na estante, no instante de procura por este livro, encontramo-nos com um pequeno livro, quase um opúsculo, do escritor Ondjaki, há prendisajens com o xão (o segredo húmido da lesma e outras descoisas), livro que, olhado de relance, tem uma proximidade medonha com o tom poético do poeta brasileiro. Evidente que dedo de Ondjaki está já aí nesse reinventar de palavras.

Pois então, recortamos desta edição o poema de abertura, dedicado a Manoel de Barros e uma nota do autor sobre o encontro seu (de certo modo foi um encontro) com o próprio autor d'O livro das ignorãças.

Chão
palavras para manoel de barros

apetece-me des-ser-me;
reatribuir-me a átomo.
cuspir castanhos grãos
mas gargantadentro;
isto seja: engolir-me para mim
poucochinho a cada vez.
um por mais um: areios.
assim esculpir-me a barro
e re-ser chão, muito chão.
apetece-me chãonhe-ser-me.
***

oxalá o tempo não entorne sobre mim um esquecimento que me apague das memórias o dia e a emoção de ter recebido o postal de manoel de barros.

havia-lhe enviado uma carta inesperada (para ele e para mim), onde lhe dizia, de coração aberto, que gostaria que ele lesse este livro e tecesse algum comentário. manoel foi curto, respondendo-me num simplicíssimo papel branco recortado à mão.

agradeceu-me a carta, referiu que estava a ler a obra, porém, não foi brando, e avisou: "há exageros." numa distante simpatia, manifestou, logo de seguida, a sua delicadeza: "não vou nomeá-los." eu sorri. aquelas palavras azuis sobre o branco iam ao encontro da ideia que eu tinha da sensibilidade do poeta.

tão suave como os próprios bichos que convida para os seus livros, deixou-me isto no ar: "há em você a consciência plena de que poesia se faz abandonando as sintaxes acostumadas e criando outras. são as palavras que guardam a poesia, nãos os episódios. palavra poética não serve para expressar ideias - serve para cantar, celebrar."

frase depois, parabenizando-me acerca das manobras feitas com as palavras, despediu-se com um afectuoso abraço. ao manusear aquele postal, senti que o destino me entregava algo.

ainda que manoel de barros não se revisse no papel de padrinho (como lhe chamei) do há prendisajens, em mim essa ideia se havia já fixado. os poemas tinham aparecido entre brumas da linguagem de manoel - entre bichos, entre ambiências minúsculas. deixava-me descansado ter-lhe falado sobre isso. ao telefone, mais tarde, cedi à tentação de lhe pedir uma qualquer espécie de nota de abertura. ele sorriu: "você me desculpe, mas eu não sou crítico literário..."; e chamou-me "camarada angolano".

ainda bem, manoel, que a sua sensibilidade de poeta reciprocamente se dilui na sua sensibilidade de pessoa. você é um bicho muito humano mesmo...!

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Inferno provisório, de Luiz Ruffato

L’amour, de Michael Haneke

O Bovarismo como pedra de toque na obra de Lima Barreto

A religiosidade clandestina de Hermann Hesse

Rupi Kaur: poeta reconcilia o passado das mulheres indianas e transforma sua dor em tema universal

Como alguém se transforma num escritor? Dez notas sobre o primeiro livro

Sartre: a autenticidade e a violência

Entre a interdição e a plenitude: treze livros para o Orgulho Gay

Clara dos Anjos: a chaga dos anos 20

O progresso do amor, de Alice Munro