terça-feira, 27 de março de 2012

O fantasma do facilitismo

Por Pedro Fernandes



Num texto escrito pelo professor Marcos Bagno, o conhecido autor dos estudantes de Letras por obras como Preconceito linguístico e a novela A língua de Eulália, sobre a atual situação dos cursos de Letras atualmente, ele denomina de catástrofe o nível dos alunos formandos e formados. Reitero. Não é de hoje que venho percebendo isso e nem sou o único que reconhece o problema. Apenas o fato de ter sido dito por que foi, alguém do porte do professor da UnB, é que reforça a visão que é já corriqueira entre os professores de graduação em Letras. 

A primeira vez que assumi uma sala de aula no Ensino Superior foi no estágio para o Mestrado. Na época eu era bolsista CAPES e logo, quando do andamento das aulas notei a deficiência ou o esforço hercúleo que alguns alunos têm de fazer para conseguir imaginar aquilo que está sendo dito por quem está conduzindo a discussão, no caso aqui, o professor. 

A fala de Bagno traduz ipsis literis o que se passa no espaço das Licenciaturas em Letras. Discordo dele apenas no ponto de que abarrotamos nossos alunos de textos ou fragmentos com um nível de leitura aquém dos deles. Tenha plena convicção de que o problema não está apenas no nível dos alunos. Isso é um sistema. E há terríveis vícios que nossos alunos carregam e que são sustentados ou postos pelos próprios professores. Exemplo maior: não cobrar dos alunos determinadas leituras porque não serão capazes de acompanhar. O facilitismo que acabou com o ensino básico, esse sim, é o fantasma maior quando se reconhece os problemas apontados por Bagno. Eis aí um ponto que sua fala também toca e talvez seja mesmo o interesse maior do professor quando vem falar de uma catástrofe na formação dos alunos em Licenciatura de Letras.

Sempre pergunto aos meus alunos o porquê que eles estão ali no curso e para quê esse curso lhe serve. E depois de ouvi-los digo, também, sempre: o curso de Letras serve para quatro coisas, aprender a ler, a escrever, a ouvir e a falar; se, no fim de quatro anos você não for seguro dessas quatro habilidades, esqueça que fez o curso e volte para a sala de aula se quiser continuar atuando na área.

Mas, aliado ao facilitismo, ou fruto dele, está o mal do século ou o mal maior das Letras. A ausência de leitura. Os alunos pouco leem, e leem mal. A fala comum deles quando cobro a leitura dos textos é sempre a mesma, Professor eu li o texto, mas não entendi nada. E não entende por que? Por duas razões: ou ele não leu o texto e usa essa desculpa para o  professor dele se padecer e não lhe cobrar a leitura; ou leu e, não tendo apreendido muita coisa, entende que não entendeu nada. 

Aqui, quero reforçar uma coisa que é tarefa de todo professor de licenciatura em Letras, sobretudo, de Literatura. É inadimissível que um professor aí diga que não gosta de ler. E, para minha surpresa, essa semana conversei com um que disse não ter o menor interesse em ler e que é chato e que é cansativo e que é blá blá blá. Senti-me pó. Ouvir isso de um professor de Letras talvez tenha sido o maior choque que eu já tenha presenciado na minha carreira. E cá me pergunto, o que essa pessoa está fazendo em Letras e o que esse professor diz para seus alunos sobre as leituras necessárias da sua disciplina. Sem querer bancar um profeta, mas não deve dizer boa coisa. Deve calar-se e reduzir seus estudantes ao limitado rol de textos escolhidos para o andamento do programa de sua disciplina.

Se o déficit de leitura dos alunos está no correr de tantos anos de ensino básico, porque lá, sabemos, literatura, que é uma disciplina para prática de leitura, existe (quando existe) é no último ano de ensino médio para ler alguns resumos de obras para a prova do vestibular no fim do ano, prova essa que existe como um certo favor à disciplina, cabe aos professores da Graduação cobrar de seus estudantes as leituras necessárias e a atualização de seu acervo de leituras. Ainda que na marra. Mas devem cobrar. Permitir aberturas como dispensa e outras formas de facilitismo é um erro. Leva o aluno a permanecer com o vício que carrega desde a formação menor e leva esse mesmo aluno a ser o profissional relapso que é o que muitos deles, que já estão no mercado, são. 

Quando digo que isso é tarefa sobretudo dos professores de Literatura, digo com certa razão: esses professores talvez sejam, em sua maioria, os grandes culpados por essa preguiça diante da leitura. É que as aulas de Literatura - que no ensino médio se reduzem a historicismo -, na graduação se reduzem a criticismo. Lê-se crítica, boa e ruim, mas não se lê as obras literárias. Daí que sai não somente a incapacidade de apropriação do universo simbólico da escrita, mas também a perpetuação de determinados barbarismos no campo da própria crítica. Vê aí que um coisa leva a outra. Mas, aqui já entro noutro mundo, que é plano para outro texto.