quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Um inventário imparcial dos bens de Gustave Flaubert

Por Joanna Neborsky
Cartaz por Joanna Neborsky com objetos de Flaubert.



Catalogado por M. Lemoel em 20 de Maio de 1880, doze dias após a morte do escritor.

No quarto do primeiro andar:

chapéu panamá
chapéu alto
lenço vermelho de seda 
5 pares de luvas
19 camisas
2 robes
5 waistcoasts 
7 bengalas
tabaco jar
dois pares de botas

Na sala de jantar:

35 taças de champanhe
48 pratos de jantar em porcelana jantar
uma pintura representando Napoleão
um relógio de bolso com detalhes em ouro e gravado com as iniciais 'GF'
uma corrente de ouro
um anel de sinete de ouro com pedra quadrada
uma colher de prata e duas forquilhas marcado 'N flaubert'
5 oyster- facas com punhos pretos e lâminas de prata

No quarto de estudo no primeiro andar:

Gravura em quadro madeira de carvalho representando A tentação de Santo Antão por Callot
relógio de mármore com figuras de bronze, o nome do fabricante 'Destigny' gravado na ligação
reprodução fotográfica de pintura intitulada Visions 
matriz que consiste em lanças, flechas, bandolim, cilindro Basque, machado, tubo oriental, papelão estatueta chinesa
mesa redonda e grande em mogno
toalha verde de lã
Uma pele de tigre, uma pele lince, uma pele de urso, branco
Penholder em forma de dragão
Bronze inkwell
Três paperknives, um com iniciais 'GF '
Duas lanternas egípcias
manuscrito inacabado de trabalho intitulado Bouvard et Pécuchet
Religiões da Antiguidade em 11 vols. de Creuzer
obras de Santa Teresa, em edição Migne
Obras de Walter Scott em 32 vols.
(Na gaveta de uma das pequenas estantes é encontrado a soma de 2.515 francos, soma que é depositado com Maitre Bidault para cobrir despesas de funeral, enterro, taxas e outras dívidas.)

Via The Paris Review 

103 anos de uma tragédia


Em 1905, Euclides da Cunha sai em viagem para a Amazônia como chefe da Comissão Brasileira de Reconhecimento do Alto Purus. Lá, permanece pelo menos um ano, enfrentando todas as circunstâncias perigosas numa região totalmente inóspita. 

Filha de major e de um dos principais propagandistas da República, Anna conheceu Euclides da Cunha numa das visitas que escritor fez ao seu pai. Casou-se e viveram 18 anos. Foto publicada na Wikipédia.
No Rio de Janeiro, sua mulher Anna Emílio Ribeiro, com quem se casou em 1890, lhe trai com um jovem militar, dezessete anos mais jovem. O escritor teve com ela cinco filhos, sendo que, o quinto deu-lhe para ter suspeitas de que Anna já o traía: o menino era louro, louro filho de duas pessoas morenas. No ano seguinte, o escritor volta da empreitada no Norte, muito debilitado pelos efeitos da malária. 

Dilermando de Assis. Ainda aos 17 anos quando morava na Escola Militar conhece Anna com quem passa a ter um caso que se alimenta nas longas ausências de Euclides da Cunha. Foto publicada na revista O malho.
Com a vida familiar já destruída, depois de uma longa discussão travada na noite de 14 de agosto de 1909, a mulher abandona a casa onde moravam, em Copacabana, e vai com os filhos hospedar-se na casa de seu amante no bairro da Piedade. Na manhã seguinte, depois de descobrir que ela não dormira em casa, Euclides sai até à casa de Dilermando Assis e seu irmão Dinorah, quem o recebeu. 


A troca de tiros entre Euclides da Cunha e Dilermando de Assis. Desenho publicado na revista O malho.

Ao entrar na casa determinado a matar ou morrer, as circunstâncias apontam que o escritor sacou sua arma e disparou contra Dilermando. Vendo o irmão atingido, Dinorah procurou tirar a arma das mãos de Euclides e acabou sendo baleado. Com os dois alvejados, ele deixa casa, mas é, antes de passar pelo portão de ferro da frente da residência, atingido por Dilermando.


Foto 1: Esquema das lesões na face posterior do corpo de Euclides da Cunha. Foto 2: Esquema das lesões na face anterior do corpo de Euclides da Cunha. Os esquemas foram compostos pelo Serviço Médico Legal.  Reproduções publicadas no site em homenagem ao escritor.

Após a morte de Euclides, Ana e Dilermando se casaram, Dinorah ficou paralítico como consequência do dano causado pela bala. Jogador e impossibilitado de continuar a carreira, anos depois se suicidou. Em 1916, quando Dilermando dirigia-se ao Cartório no Rio para adotar o filho mais novo de Euclides, foi atacado pelo filho mais velho. Dilermando sacou da arma e o matou. Teve cinco filhos com Anna e permaneceu casado com ela até 1926, quando descobriu que, durante todo esse tempo, ele sempre teve uma amante, Marieta, com quem se casou depois da separação. Vivendo sozinha, Anna mudou-se para Paquetá e morreu de câncer, em 1951. 

O crime ficou conhecido como um dos mais notáveis da história dos crimes passionais e serviu de inspiração para Glória Perez redigir o seriado Desejo, exibido pela TV Globo em 1990.