sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Fado alexandrino, de António Lobo Antunes



Uma coisa é certa: essas notas aqui dispostas sobre este romance de António Lobo Antunes são falhas. Elas não conseguirão dizer, no total, o que é este livro; elas não conseguirão fazer entendê-lo. A razão disso é simples, há que lê-lo para ter essa totalidade; há que relê-lo para se fazer entender. E as notas são recolhas para uma primeira impressão sobre o romance.

1. Este é na linha horizontal da obra do escritor português o seu quinto romance; vem depois da trilogia Memória de elefante, Os cusde Judas e Conhecimento do inferno e de A explicação dos pássaros. Se sobre o último romance arrisquei-me dizer que estava diante de novo lugar temático na literatura de Lobo Antunes, reafirmo esta visão, agora ainda mais acesa, diante do quinto romance. Estamos aqui situados no tempo imperfeito – não no sentido do modo verbal e sim na já característica superposição dos tempos que nos romances antunianos compõe uma amálgama de acontecimentos reinventando um estágio temporal outro, alheio ao tempo comum e muito próximo do movimento de rememoração. Sabe-se apenas que estamos numa situação: um grupo de amigos retornados há pouco mais de dez anos da África sentam-se num jantar e vão, cada um à sua maneira, segurado pelo braço da memória dá contas de como foi esse retorno e o que se sucedeu a eles no correr da última década. Fora o retorno do continente africano outro fato histórico que tem servido de lugar comum à literatura portuguesa de depois da década de 1970, a Revolução dos Cravos, ponto culminante da derrocada do Estado Novo.

2. As cinco personagens são representativas dos dois principais momentos da história portuguesa – são todas militares: um tentente-coronel, um alferes, um comandante, um soldado e um tenente, este que pouco aparece na narrativa e está mais como um sujeito ouvinte.  Todas as personagens estão em declínio, não apenas porque o tempo do militarismo está em falta, mas porque o destino pelo qual lutaram parece não tê-los convencidos tampouco lhes dado razões para o triunfalismo prometido. É, pois, um encontro de desilusões, de reflexões sobre um fim e uma glória perdida num lugar empoeirado qualquer da memória.

3. Dividido em três partes – “Antes da Revolução”, “A Revolução” e “Depois da Revolução” – o livro é uma multiperspectiva sobre os mesmos acontecimentos. Muito embora seja esta uma leitura do próprio Lobo Antunes, o leitor, alheio a esta informação só tomará consciência exata desse movimento da narrativa na segunda parte, na qual os acontecimentos são descritos em sua grande parte na terceira pessoa e com poucos desvios da linearidade. Na primeira parte o leitor é confrontado com um intercâmbio de fatos e uma oscilação entre a primeira e a terceira pessoa que dá uma confusão mental custosa de resolução: até mesmo para encontrar o lugar das vozes das personagens é coisa que só conseguirá, parcialmente, já na segunda parte do romance. Num primeiro momento todos relembram o retorno de África, no segundo o que foi/como foi a Revolução dos Cravos e no terceiro momento, todos estarão confrontados com um acontecimento que mudará os seus futuros, no fim do jantar, entre prostitutas, ocorre um assassinato.

4. Aclamado como um dos mais brilhantes livros do escritor, Fado alexandrino merece, sim, o epíteto: não apenas porque os modos de experimentação do autor são aí utilizados em sua plenitude, como não deixa de existir o rumorejar reinventivo em torno da linguagem do romance como vimos notando nos quatro primeiros romances. Tenho comigo que uma das perguntas mais irresponsáveis a se fazer a um escritor é “qual o seu processo de criação”, mas como incipiente nos jogos de narrar desenhados por Lobo Antunes, se me fosse dada a oportunidade, não hesitaria em fazê-la. Sim, porque é um projeto de engenharia muito bem desenhado: e surpresa maior é que, do caos narrativo, todos não saem ilesos, mas conseguem no fim, ter um suspiro sobre os acontecimentos. Digo isto porque mesmo em Proust, em Virginia Woolf, em Joyce, escritores que são utilizados para aproximar como ilustradores do arquitetado por Lobo Antunes, apenas se assemelham, pelas breves leituras que já fiz desses escritores. No fim, o escritor português é qualquer coisa de novo pela capacidade reinventiva da própria forma narrativa.

5. Fado alexandrino é o romance de um tempo parado. Todo volteio dado em torno do mesmo ponto, e sempre pela matéria do caótico – até o desfecho, com o crime e seu ocultamento – dão notas de que o tempo de fezes (para reproduzir uma expressão do poema de Carlos Drummond de Andrade) não está no passado, mas prolonga-se num presente que não consegue se desvencilhar do peso desse tempo nele incrustado. Está implícita aí uma ausência de alegria, porque toda vez que colocado diante da reflexão acerca de si e do que está a sua volta as personagens dão sempre com uma paralisia que as sufoca, corrói-lhes as perspectivas e no fim de tudo não há outro sentimento sobre o mundo do que a mágoa, o ponto de uma revolta.