Um novo olhar

por Renato Janine Ribeiro*

A miséria é um tema novo, no século XIX. Como realidade, é bem antiga, mas a novidade é ela se tornar tema, isto é, aparecer como algo que causa escândalo e que, dizem cada vez mais romancistas e cientistas sociais, pode - e deve - ser superado. Luís XIV, conforme alguns historiadores, estava consciente da miséria que grassava em seu reino, na segunda metade do século XVII; isso não o impedia de prodigar luxo, a si mesmo e a seus próximos; simplesmente, não acreditava que pudesse fazer o que quer que fosse contra a pobreza. Mas o tempos mudaram. A principal causa da mudança está talvez nas enormes migrações do campo para a cidade, que marcaram esse período de guerras e de industrialização, que foi o começo do século XIX, deslocando gigantescos contingentes de homens e mulheres. Estes deixavam o campo, no qual tinham um certo endereço, onde, embora vivessem em condições modestas, dificilmente lhes faltava moradia (ainda que o mesmo nem sempre se pudesse dizer da comida), e iam para cidades onde o emprego, residência e alimentação eram precários e, eventualmente, até inexistentes. Tal processo não é privilégio de um só país: em Os miseráveis, veremos sua realização francesa, mas, se lermos Charles Dickens, teremos sua versão inglesa. É isso o que o permite falar de um espetáculo da pobreza, na Londres e na Paris do século XIX.¹

A Paris do tempo de Victor Hugo vista pelo próprio escritor, que também foi exímio com artes plásticas.
Podemos abordar esse tema por um ângulo preciso, o da mudança no olhar. Victor Hugo é que o observa, por volta de 1840. A essa época, ele frequenta os poderosos, melhor dizendo, o Rei Luís Filipe e sua família; é Par de França e, nessa qualidade, membro da Câmara Alta. Já é escritor respeitado e toma algumas posições que farão parte de sua fama, como por exemplo a oposição à pena de morte. É a Câmara dos Pares que julga quem tenta assassinar o rei, coisa que acontece algumas vezes sob o reinado de Luís Filipe. Contrário à guilhotina, ainda assim Victor Hugo anota com certo alívio que o regicida não está mais submetido à antiga punição do parricida, que tinha a mão amputada, no cadafalso, antes de lhe cortarem a cabeça.

Retrato de Cosette, uma das personagens de Os miseráveis por Émile Bayard para edição
original do romance, em 1862.

Mas o grande poeta ainda assim se mostra, no tocante à pobreza, bastante ingênuo. E exemplo disso é que o incomode a percepção de um novo olhar, o dos pobres sobre os ricos. Numa festa dada pela monarquia, por exemplo, percebe que os pobres - do lado de fora de uma cerca - olham com rancor para o luxo que se ostenta nas roupas, nos comes e nos bebes dos privilegiados. Comenta Hugo: Eles não entendem que é o consumo suntuário dos mais ricos que lhes dá trabalho e emprego. Nada de notável nesse comentário, absolutamente conservador, superado do ponto de vista econômico. Podia valer para as condições políticas do Antigo Regime, da monarquia sustentada nos privilégios, mas já não serve para um tempo em que os direitos passam a ser o fundamento da política. 

Um tempo depois, porém, um segundo olhar marca-o. É o de um pobre vendo um rico que desce de uma carruagem, no centro de Paris. Faísca ódio no olho do pobre. Penso que é então que Victor Hugo se dá conta dos conflitos sociais em torno da miséria. Deixa de censurar o pobre por não respeitar quem lhe dá emprego, e começa a compreender o peso das lutas sociais. Lamenta esse fato, continua talvez acreditando que a riqueza e mesmo o consumo suntuário dão pão aos pobres - mas percebe, o que é importantíssimo, a radicalidade desse olhar crispado de ódio.

Certamente, para quem lê a história a posteriori, e além disso conhece Marx, Victor Hugo pode parecer superficial. Aliás, nas primeiras e nas últimas páginas de O dezoito brumário de Luís Bonaparte, obra de Marx publicada no começo de 1852, Victor Hugo se vê questionado - ou, se não ele, pelo menos suas posturas. Viu o golpe de Estado de Luís Napoleão Bonaparte, em dezembro de 1851, como algo inesperado (um raio em céu azul). Conclamou o povo de Paris a se revoltar contra o golpe, e isso quando as bases sociais para tal resistência já estavam eliminadas. São dois pontos que Marx critica ou ridiculariza.² Mas tais críticas importam relativamente pouco, porque o mínimo a dizer delas é que são anacrônicas: Victor Hugo foi o maior responsável por se constituir, na França e num mundo inteiro que lia e sentia com base na cultura francesa, uma preocupação com a miséria. Com ele, não só se deslancha esse tema como, além disso, se assume uma fisionomia compassiva, solidária. 

Mas falemos um pouco do olhar. Havia, no Antigo Regime, isto é, sob o reinado dos três Luíses que precederam a Revolução Francesa, um olhar de outro tipo. O rei dava-se a ver. A brilhante novidade de Luís XIV, ao tomar o poder por volta de 1660, foi oferecer-se em espetáculo a quem o rodeasse. A França vivera uma convulsão, a Fronda, em plena infância do Rei. Certa noite, para certificar-se de que a Corte ainda estava na capital, a populaça parisiense entrara no quarto do jovem Luís XIV, que dormia; diz-se que ele jamais perdoou essa desfeita. Retirou-se de Paris, construiu Versalhes e, muitos anos depois da Fronda, ao saber de um antigo rebelde, desde então súdito fiel e pacato, ainda o mandou enforcar. A Inglaterra saía de uma república que até mandara executar o próprio Rei, Carlos I. Bordeaux, no sul da França, chegou a traduzir os textos dos levellers, os mais radicais dentre os revolucionários ingleses, que defendiam uma reforma agrária ampla.

Contra a turbulência que assim ameaçava as monarquias europeias, e inclusive a sua, a inteligência de Luís XIV consistiu em criar um silêncio à sua volta, feito de respeito, temor e admiração. A etiqueta foi a regra dessa nova, e muito hierárquica, sociabilidade. Há monarquias em que não se pode olhar o rei, seja na África, seja no mais antigo czarismo; ele é sagrado, porque oculto. Luís adotou a estratégia oposta: o Rei seria sedutor, seria sol. Perto dele, todos os astros empalideceriam. Daí a construção de um novo e belo palácio. Daí a importância, nesse palácio de Versalhes, de tudo o que chamasse a atenção para a vista, a principiar pelos jardins geométricos e pelas fontes. Daí a concentração da nobreza à sua volta.

No reinado de seu pai, Luís XIII, o poderoso Cardeal de Richelieu, chefe do governo, mandara demolir os castelos fores dos nobres, assim como fizera decapitar aqueles senhores que teimavam em duelar, a despeito dos editos reais, e ainda substituíra, nas refeições, a faca de gume cortante pela faca rombuda, de ponta cuva, que hoje conhecemos. Tudo isso obedecera a uma estratégia bastante precisa de repressão à violência, em especial àquela patrocinada pela alta nobreza que, dos tempos feudais, guardara a turbulência e, mais que isso, a pretensão de exercer poderes e direitos que agora incumbiam ao Rei, detentor do monopólio da violência legítima, aquela exercida pela lei. Pois Luís XIV levou mais longe essas práticas que mesclavam a alta política (fortificações destruídas) e a micro (talheres que não fossem armas). Instaurou não só a etiqueta, mas um novo gosto: só valia o que estivesse perto do Rei, só valia o valido que olhasse o Rei e fosse visto por ele. A Corte se constitui em espetáculo. Nada, fora dela, vale a pena. Um nobre, o Conde de Wardes, banido da Corte por longo tempo, é chamado de volta por Luís XIV; agradece a Sua Majestade: Longe de vós, não se é somente infeliz, é-se ridículo. É-se nada. Só importa o que o rei vê.

Cena de Vatel. A pompa e o refinamento são elementos da nova cara da realeza.

Ele não vê a miséria. Sabe, sim, que existe, mas como nada pode - ou nada quer - fazer por ela, fica de fora de sua visão. No belíssimo filme Vatel,em que se propõe uma nova leitura dos últimos dias desse grande cozinheiro do Príncipe de Condé, há uma cena em que uma mulher do povo, em andrajos, insulta Luís XIV, responsabilizando-o pela morte de seu filho nos canteiros de obras de Versalhes. Condé manda castigá-la com cem chibatadas, e Luís aprecia essa punição. A miséria não merece piedade. Para o furto doméstico, aliás, a pena é a fora. Mesmo Voltaire, um século depois, justificará castigo tão pesado para delito tão pequeno, dizendo que furtar o patrão é uma quebra imperdoável da confiança que deve reinar na casa.

Temos, ao longo dos séculos XVII e XVIII, uma sociedade em que o olhar se tornou fundamental. Quando Matteo Ricci constrói seus palácios da memória, isto é, divulga uma técnica mnemônica que nos faz lembrar o máximo de coisas alojando-a nos cômodos de construções imaginadas, é o olhar que serve de suporte para o aprendizado. O mesmo ocorre quando Descartes filosofa, usa como critério da verdade a evidência (mal traduzindo, aquilo cuja verdade salta aos olhos) e pede, terminada uma sessão de conhecimento, que enumeremos, que tabulemos, que revisemos tudo o que foi exposto. A razão que então se emancipa recorre em abundância ao visual. E por isso para não falar no extraordinário avanço das artes visuais, no período clássico - ou barroco, se quisermos. Mas, desse olhar, a pobreza não é o alvo. Mesmo no século seguinte ao do Rei-Sol, quando Luís XV abre aos domingos o palácio de Versalhes para os burgueses de Paris, o que estes desejam ver é mais o rei - tomando o seu café da manhã - do que os aposentos e jardins. A realeza, a nobreza e o luxo são ainda o objeto privilegiado do olhar.

Victor Hugo em foto de 1880, já depois de ter escrito Os miseráveis. O romance foi Best-Seller em menos de 24h quando da sua publicação. A mudança de olhar do escritor, entretanto, talvez deva ser atribuída, em grande parte aos anos do exílio. Foto: Henry Guttman.

Por isso é tão importante que, um dia, Victor Hugo perceba a importância do olhar do miserável. Porque aqui é indissociável, no que estamos dizendo da visão, quem vê e quem é visto. Enxergar e ser enxergado são um só movimento. No Antigo Regime, o rei era objeto mais desejado do olhar, mas era também dele o olhar que dava vida às pessoas, mais precisamente, aos cortesãos. Longe dele, o nobre definhava (precisava, se fosse exilado em suas terras, aprender a ser estoico). Analogamente, quando Victor Hugo capta o ódio do pobre, ele não dá a esse último a dignidade, tão demorada a aparecer, de ser um sujeito cujos olhos, cuja visão da sociedade, contam e têm importância, como também o torna personagem do grande teatro do mundo. Ele passa a ser visto. Passa-se a falar dele.

Ou tomemos outra via. Em julho de 1830, Paris se revolta contra o Rei Carlos X, que tentava restaurar o absolutismo monárquico. São três dias de combates nas ruas. Serão conhecidos como as "Três Jornadas Gloriosas". Alexandre Dumas, ainda moço, sai armado para lutar contra monarquia despótica. Coloca-se numa barricada. Mas não tem onde apoiar o fuzil. Um operário se aproxima, ajoelha-se constrangido, diz-lhe: - Sem proteção, você vai morrer. - O operário responde: - Minha vida vale menos que a sua, porque não sei atirar e o senhor sabe.

Um episódio como esse é significativo. O operário se sacrifica àquele que, por se mais rico, é dono de uma arma e sabe manejá-la. Mas a Revolução de 1830 foi o último grande movimento mais político do que social da história da França. Victor Hugo comenta-a, em seu diário (na verdade, ele tem dois diários, um pessoal e íntimo, e outro que trata dos assuntos públicos; refiro-me a este último, publicado com o título de Chose vues). Entusiasma-me por ela. 

Mas passa-se um mês ou dois das jornadas de julho de 1830, e Victor Hugo acrescenta: A França mudou por completo, estas semanas. Antes, nosso referencial era a Inglaterra. Agora é a América. Explica-se essa intuição. A França tinha por ideal, até depor Carlos X, ter uma monarquia constitucional como a inglesa. Sua história - o que Victor Hugo não diz, talvez nem tenha consciência plena disso, mas está implícito em suas palavras - emulava a inglesa. A Inglaterra depôs e decapitou, em 1649, um rei, Carlos I. A França fez o mesmo com Luís XVI, em 1793. Seguiu-se uma república, nos dois países, na qual o poder acabou empolgado por um único homem; Cromwell na Inglaterra, com os poderes e vestes de rei ainda que sem o título, Napoleão na França, com os poderes e título de imperador - mas isso durou pouco tempo. Os dois deixaram seu poder par o filho, mas nem Richard Cromwell se manteve, nem Napoleão II chegou a reinar. A antiga monarquia foi restaurada e, se quisermos ser muito detalhistas, notaremos que se sucederam no trono dois irmãos, Carlos II e Jaime II, na Inglaterra, Luís XVIII e Carlos X, na França; e, deles, o segundo a reinar se mostrou mais implacável, mais radical, mais intransigente, a ponto de precipitar uma sublevação apoiada até pelos mais moderados de seus súditos.

Essa revolução foi "gloriosa" na Inglaterra - porque não derramou sangue, porque foi promovida pela classe alta, porque o próprio genro e a filha do rei a comandaram e, depois, assumiram o trono, sem portanto os transbordamentos populares que levaram a primeira Revolução Inglesa a radicalizar-se. E foram as "Três Jornadas Gloriosas" na França, porque também tudo se deu rapidamente, num amplo consenso social, assim evitando a radicalização da primeira e grande Revolução Francesa. O caráter glorioso assim, nos dois casos, exaltava a utilização de meios menos violentos, mas também o resultado mais conservador.

Só que, terminado isso, a França para de imitar a Inglaterra. Essa imitação durara dez ou quinze anos. A revolução iniciada em 1789 e o império que se seguiu a ela tinham sido processos históricos originais. A Restauração dos Bourbon, em 1814, mesmo com todo o seu retrógrado (Luís XVIII considerava estar reinando desde a morte de seu sobrinho, o infeliz Delfim Luís XVII, supondo portanto nulos e írritos o regime republicano e o imperial), introduzira uma nova agenda política. A liberdade de expressão, a paz e as eleições rompiam com a censura, a guerra e o centralismo do poder napoleônicos. É verdade que havia a censura, que a França invadira a Espanha para reprimir a Revolução Liberal e que nas eleições, não só não havia sufrágio universal como também se usavam truques, como por exemplo dar votos suplementares a quem pagasse mais impostos. Mas, com tudo isso, um processo de liberalização se iniciara. E ele parecia culminar, em 1830, na constituição de uma monarquia efetivamente constitucional. Só que a maioria teve a sensação de ter-lhe sido furtada a flama revolucionária, ao término das jornadas gloriosas, quando um primo do Rei, ainda que liberal, subiu ao trono. É por isso que Victor Hugo diz que o referencial passou para os Estados Unidos, ou seja, que já não basta a monarquia constitucional, agora se sonha com a república.

Mas mesmo isso é insuficiente. Na verdade, o que 1830 divide não é tanto o ideal monárquico constitucional do republicano, mas o ideal político do social. O operário de Dumas podia dar a vida para que o burguês atirasse no inimigo comum, o Rei déspota, Carlos X. Mas as condições sociais insuportáveis em que viviam os pobres e miseráveis logo fariam, do operário e do burguês, inimigos. Só isso permite entender, como Victor Hugo contará a certa altura das páginas [de Os Miseráveis], que os trabalhadores se empenhassem tanto em se armar. Não importa se sabiam ou não do episódio que Alexandre Dumas relata: o fato é que não queriam mais servir de carne para canhão nas lutas da burguesia, que se dava por satisfeita com "o Rei burguês", Luís Felipe. E essa importância das lutas sociais na política francesa - e europeia - é o que distinguirá o Velho Mundo do Novo, no qual é sempre possível, como Marx em O dezoito brumário, remeter os excluídos para o Oeste, deportar para a extensão territorial o conflito de classes, em outras palavras, sair da caldeira explosiva em que a história se produz para uma geografia apaziguadora.

Porque aqui estamos na caldeira explosiva. Os operários se tornaram classe perigosa - é o nome de um clássico da análise sociológica, Classes laborieuses, classes dangereuses, de Chevallier, no qual se trata da imagem que as classes dominantes francesas constroem a respeito dos trabalhadores. Uma série de medidas se adotará contra eles - entre as quais, em 1850, uma lei eleitoral que restringe o direito ao voto, pouco tempo antes estendido a todos os homens maiores de idade e a quem residisse havia pelo menos três anos no mesmo município. Isso não só subtrai o voto da mão de obra migrante, numericamente enorme, dadas as condições de exploração do trabalho, como também submete o trabalhador a um atestado de residência fornecido pelo próprio patrão, que pode negá-lo a um empregado cujas ideias políticas não lhe pareçam seguras. 

É esse o universo que Victor Hugo vai nos apresentar. As lutas sociais estão surgindo na cena pública. Antes, elas apareciam a reboque de outros movimentos. Constituíram o desdobramento radical da Revolução Inglesa, a de 1640, ou da Revolução Frances, de 1789. Porém, com a década de 1830, elas acontecem por conta própria. E Os miseráveis é a grande obra - ao lado de muitas outras, que vendiam bastante na época - não só a mostrar o espetáculo da pobreza, mas a despertar nossos sentimentos pelos mais pobres. É uma maneira de negar que os operários sejam perigosos. Podem até parecê-lo, na sua fúria justa, mas não o são. Toda uma política de solidariedade com eles, de apoio aos explorados, vai ter nos sentimentos de compaixão, até ser criticada, pelos marxistas, como lacrimosa, piegas, mas ela é fundamental para entender como uma cultura de massas, vendida aos milhares de exemplares (hoje diríamos, aos milhões), passa a tematizar não só o amor infeliz de ricas herdeiras órfãs, mas a infelicidade das massas trabalhadoras. É muito melhor do que a mania pela segurança pública que, hoje, a mídia constrói.


Notas:
¹ Valho-me aqui do título do belo livro de Maria Stella Bresciani Londres e Paris no século XIX: o espetáculo da pobreza. São Paulo: Brasiliense, 1994.

² O dezoito brumário é uma obra importante, e já lhe dediquei um artigo "O novo e o páthos (em torno de O dezoito brumário)", in A última razão dos reis, São Paulo: Companhia das Letras, 1993, 1ª reimpressão 2002. Mas não deve ser superestimada. A análise cheia de desprezo que vota a Napoleão III não se justifica. O imperador presidiu um desenvolvimento econômico importante e, não fosse ter sido derrotado na Guerra Franco-Prussiana de 1870, os marxistas não poderiam ler seu reinado com o sarcasmo de O dezoito brumário. E tampouco se justifica o desdém que o mesmo Marx vota à II República (1848-51), por sua vida tão curta, a seu ver fruto da pouca radicalidade no trato das questões sociais; depois do estudo de Maurice Agulhon, 1848 ou o aprendizado da República, ela pode ser considerada como a experiência histórica que dissociou a República e o Terror, que aboliu a pena de morte em matéria política, em suma, que preparou a França para a consolidação republicana que se dará a partir da década de 1870.

* Texto de introdução a edição de Os miseráveis, São Paulo: Cosac Naify, 2012.

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