Philip Roth

Philip Roth em 1987. Foto de David Montgomery.


Desde que o anúncio de sua aposentadoria feito em outubro, mas só ganhado destaque a partir de em novembro de 2012 (comentamos aqui), e já contradita neste ano, quando disse não saber existir sem escrever, Philip Roth, que chega hoje aos 80 anos, ganha destaque na literatura universal e volta a ser cogitado entre os apostadores com um escritor que merece levar o Prêmio Nobel este ano. Volto, duas linhas, por achar que talvez nem seja tanta contradição assim: assumir que parou de escrever pode ser um reconhecimento de que a fonte esgotou, não há mais nada a dizer, e o que resta, este não saber existir sem escrever, não passa de vício de quem levou uma vida nesse universo complexo, o da palavra. Recentemente a revista New York Magazine perguntou a trinta nomes envolvidos com a literatura (personalidades como Salman Rushdie) se o escritor poderia ser considerado o maior romancista estadunidense vivo, ao que 77% respondeu que sim.

No Brasil, as celebrações em torno de Roth se dão em jornadas de leitura e discussão sobre seu trabalho, além do abastecimento das livrarias com toda sua obra já traduzida por aqui e publicada já desde os idos de duas décadas passadas; alguns livros já estavam mesmo precisando de uma reimpressão, estavam se transformando em produto raro, coisa de butique nos sebos que passa dia após dia e se tornam cada vez mais especializados em carestia.

Nascido em Nova Jersey, a carreira de escritor veio-lhe ainda na infância quando se apaixonou pela literatura: “Mais tarde, eu disse a mim mesmo que poderia ser escritor” – relembra na longa entrevista dada em outubro de 2012 para a revista francesa Les Inrockuptibles, quando anunciou que teria parado de escrever. Apesar do que podemos chamar de escolha precoce não foi sua estreia no universo das Letras algo que possamos assim definir. Seu primeiro trabalho só aparece em 1962, quando já estava perto dos trinta anos: uma coletânea de contos. De lá para cá, não parou mais e sua catedral literária ultrapassa mais de duas dezenas de peças com incursões por vários gêneros da prosa, seja o conto, a novela, o romance e o ensaio.

Toda essa produção já foi galardoada com alguns dos mais importantes prêmios como o Pulitzer em 1998, o Man Booker, em 2011 e o Príncipe das Astúrias em 2012. Tem destaque trabalhos como a antologia de estreia que logo o projeto para o cenário local, nos Estados Unidos, Adeus, Columbus, (livro transformado em filme - Paixão de primavera) e a trilogia publicada na década de 1990 composta pelas novelas Pastoral americana, Casei com um comunista e A marcha humana, além de O teatro de Sabbath, eleito pelos da pesquisa da New York Magazine como seu melhor livro, o autobiográfico Patrimônio e O complexo de Portnoy, romance que mais lhe rendeu comentários pela crítica.

No documentário Philip Roth, Unmasked que vai ao ar até o fim de março na série American Masters da PBS, o escritor relembra quais as controvérsias que se seguiram desde a publicação de O complexo, livro resultado de um bloqueio de escrita que só foi resolvido quando das sessões com um analista e que antes do lançamento mereceu uma sessão de conversa com os pais sobre a publicação que estava por sair; o romance, ele avisou, ia causar muita controvérsia e talvez a crítica estivesse mesmo já com artilharia armada para atacá-lo. Por essa razão, Roth não queria ver o lançamento do livro, era melhor sair do país e ficar no anonimato por algumas semanas, por isso comprou ingressos para um cruzeiro; a viagem marcada foi desfeita quando descobriu que seu próprio havia trazido uma caixa com cópias antecipadas do livro. O orgulho do pai deu-lhe forças para participar até de uma sessão de autógrafos. Toda sua obra buscou influências em grandes nomes da literatura que Roth diz está em releitura, além da sua própria obra; são escritores como Dostoiévski, Turguêniev,Tolstói entre outros – Kafka, concorda, é sua obsessão, revela em Unmasked.

Boa parte da obra de Roth é uma tentativa de compreensão das mudanças culturais sofridas pela sociedade americana e o modo como a própria literatura tem acompanhado essas transformações. Harold Bloom, acusa-o, por isso, como o mais importante escritor da Literatura Estadunidense desde William Faulkner, com a virtude de que desde que publica O complexo, Roth tem conservado o gosto pela transgressão como elemento peculiar de sua obra. Ao comentar sobre Zuckerman acorrentado, outro título mais bem recebido pelos leitores em geral, Luciano Trigo concorda que o projeto literário do escritor “é marcado por um senso de humor peculiar, pela valorização do erotismo e pelo desafio às convenções e às ortodoxias, incluindo-se aqui a ortodoxia do pensamento sobre a identidade judaica” – Roth é de origem judaica.

O lugar da obra de Philip Roth foi o de quem soube transformar ele mesmo em matéria literária. Apostam nessa constatação 97% dos entrevistados para a pesquisa da New York Magazine. Resta agora aguardar a biografia que Blake Bailey está escrevendo e com a qual o escritor tem estado a contribuir com a cessão de documentos, que depois, pede Roth, quer que sejam queimados – “Não quero que meus papéis pessoais andem por aí. Ninguém tem de os ler.” E ainda a leva de livros que faltam nos chegar a tradução.

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