Vergílio Ferreira



O nome poderá soar desconhecido a muitos brasileiros, mas é o autor de uma obra das mais significativas para as literaturas de língua portuguesa do século XX. Apesar de termos por aqui o estudo mais acurado e completo para sua obra, o livro Vergílio Ferreira – Para sempre, romance-síntese, resultado da tese de doutorado do professor José Rodrigues de Paiva, estudioso e dono de outros títulos sobre o escritor português, as prateleiras das livrarias nacionais estão vazias já tem tempo de suas principais produções. Já não dizemos de toda obra, porque ela é, como terá definido parte da crítica, ampla e multifacetada; e se por aqui não nos chegam títulos de José Saramago, um dos mais populares entre nós, o que dizer então de nomes que estão à sombra no mercado editorial brasileiro. Os leitores argutos salvam-se nos sebos, onde é possível encontrar muita coisa do autor.

Vergílio Ferreira escreveu do romance ao conto passando pelos ensaios, a poesia e os diários. O escritor nasceu em Melo, distrito da Guarda, em 1916, e morreu em Lisboa em 1996. No correr da obra que nos deixou quis pensar por vias diversas o próprio espaço onde viveu. Fez seus estudos em Coimbra, foi professor em Évora por longos catorze anos. E não terá ficado apenas nas representações do espaço nacional, quis pensar também os locais menores por onde andou, quis compreender a matéria de seus significados.

Iniciou a carreira de escritor ainda na década de 1940 quando escreve O caminho fica longe, seguido de Onde tudo foi morrendo e Vagão J – tríade que integra a primeira fase de sua escrita, marcadamente neorrealista. Depois deles, segue, fascinado pelos existencialistas como Jean-Paul Sartre, Camus e Malraux. Uma vida para se fazer próximos também dos seus escritores favoritos, além dos citados, Dostoiévski, Sófocles e os da tragédia grega, e conterrâneos da literatura portuguesa, como Raul Brandão.

De então, é o próprio Vergílio quem assim reconhece o percurso de sua escrita e sua proximidade com esses autores, quem fomentarão a preocupação para temas como vida e a morte, o amor, a solidão, a sondagem das profundezas do eu e do autoconhecimento individual que passa necessariamente pelo conhecimento do outro. É de seu entendimento que a arte é uma forma de ‘dar a ver’ o que a rotina do cotidiano esconde, a arte da escrita como depuração da vida: “Escrever é abrir um sulco de sinais por onde o quem somos ou o que sentimos há-de passar.” – definiu certa vez. Ainda na lista dos temas, tem profundo interesse pelo centro da filosofia niilista, a morte de Deus.

Estão nesta fase os trabalhos a partir do fim da década de 1940, tais como Manhã submersa, Do mundo original, Aparição, entre outros títulos. Tem destaque aí a personagem principal como narradora cujo interesse está em sondar a partir dela os problemas existenciais; utilizando-a como propulsora a um ensaio de si, como é caso, por exemplo, de Roquentin, personagem-ensaio de Sartre. Não se finda aí: o movimento de pensar sobre o sujeito e seu lugar no mundo também será transposto ao interesse de pensar a própria arte e sua relação com o lugar que ela ocupa na vida humana.

Cena de Manhã submersa; o romance de Vergílio Ferreira foi adaptado ao cinema por Lauro António.

Mudança – o romance que antecede Manhã submersa já apresenta feições existencialistas, mas é a partir do segundo em que é possível notar essa verve que será perseguida pelo escritor, quase como obsessão por um grande romance, em toda obra seguinte, alcançado segundo José Rodrigues de Paiva, depois de quinze títulos, com Para sempre entendido pelo professor como um romance-síntese, um “coroamento de tudo quanto veio a ser construído nos romances anteriores, formadores de ciclos pelas interligações temáticas, sentido de pesquisa ou de problematização filosófica e estética, Para sempre é visto como a última “fronteira” de um vasto território literário onde se interligam o romance, o ensaio e o memorialismo representado pelo diário do escritor.

No gênero ensaio, Vergílio escreveu vários volumes: uns com interesse para a crítica literária como Sobre o humorismo em Eça de Queiroz outros com interesse para a escrita e temas dos estudos literários, como é caso em Carta ao futuro e Do mundo original. Dos diários, contam-se nove volumes sob o título Contra-Corrente; os textos aí reunidos dão conta do cotidiano de escrita de Vergílio – isto é, um continente público e não privado como sugere a visão mais comum para o termo do gênero. Aí é que estão ‘mapeados’ muitos dos poemas do escritor que só escreveria um livro com interesse no verso, Uma esplanada sobre o mar, que é um livro em que se mesclam aos poemas, contos. Do gênero, aparece o primeiro trabalho, em 1953, A face sangrenta, seguido de Apenas homens.

Voltando, por fim, ao ponto de partida deste texto, devemos concordar que é um desleixo das livrarias não atentar para determinadas singularidades na escrita de língua portuguesa. Sabemos dos custos e das burocracias, mas o ideal é que os de língua materna pudessem ler-se uns aos outros; seria de muita valia. E olhe que em Portugal, estamos para quatro anos que a obra integral de Vergílio vem sendo reeditada. 



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