Lygia Fagundes Telles e a escrita do amor


Por Maria Aparecida da Costa




Na vocação para vida está incluído o amor, inútil disfarçar, amamos a vida. E lutamos por ela dentro e fora de nós mesmos. Principalmente fora, que é preciso um peito de ferro para enfrentar essa luta na qual entra não só o fervor mas uma certa dose de cólera, fervor e cólera 

(TELLES, 1998, p. 42)

Sempre quando temos acesso a alguma entrevista com Lygia Fagundes Telles ela fala da paixão, do amor e da foça destes sentimentos em favor de qualquer ofício. Para ela, sobre a arte da escrita, mesmo sendo uma profissão árdua, quando executada com paixão, torna-se mais leve. Lygia insiste que, sem paixão, sem amor, mesmo tendo muita competência, o homem não conclui de forma satisfatória sua tarefa. Desta feita, é comum encontrar na obra da escritora personagens que andam às voltas com os diversos sentimentos que guiam o sujeito em sua existência. Além do debate sobre as relações amorosas em si, Lygia salpica na esteira de seus personagens assuntos tabus e conflitantes para o Brasil que nunca se livrou dos resquícios de uma formação reacionária. Questões caras a uma contemporaneidade que desnuda as idiossincrasias referentes à humanidade. 

Em entrevista publicada no prefácio do livro de contos Oito contos de amor, antologia publicada pela Ática ainda 2005, Lygia fala da força de alguns temas recorrentes em sua obra, e fazendo uma espécie de mea-culpa, ela afirma: “Quase peço desculpas por não ser mais otimista quando trato da crueldade. Do sofrimento. Do medo. Mas o amor (e desamor) não está sempre presente?” (p.7). Isto é, embora a escritora tenha consciência da força desses sentimentos, também não ignora que eles, para o bem ou para o mal, fazem parte da humanidade e não podem ser ignorados pela literatura.

Neste “rascunho” sobre a escritora, nos bastaremos em falar sobre um tema de recorrência indelével em sua obra: o amor. Especificamente o amor Eros, aquele que mesmo satisfeito tem necessidade, pois foi concebido a partir do coito de Pénia, a pobreza, com Poros, a riqueza, conforme posto em O banquete de Platão. A manifestação de Eros nos personagens magistralmente criados por Lygia faz com que estes se enveredem pelas tramas do sentimento amoroso e se percam em seu próprio prazer, se entregando à morte, como algumas espécies de aracnídeos depois da cópula. A miséria trazida por este deus dos prazeres e das dores, dos encontros e desencontros, que não obstante desencadeia em frustração, são imanentes às variáveis do sentimento amoroso. 

O consequente fim, seja ele pela morte física, como se vê no romance As horas nuas, publicado pela Companhia das Letras em 2010, quando o personagem Miguel morre modificando para sempre a vida da protagonista Rosa Ambrósio; ou outro motivo como a insegurança por se relacionar com alguém cuja diferença de idade ultrapassa a estipulada pelo paradigma instalado, situação presente no mesmo As horas nuas, ronda e perturba o personagem que se atreve a amar nas obras de Lygia Fagundes Telles. Além dos exemplos citados acima, o tema do amor é recorrente em várias outras obras de Lygia, seja no romance célebre, Ciranda de Pedra, como no romance de teor político As meninas, isso só para ficarmos em alguns poucos exemplos. Vez por outra, ainda aparece nas criações de Lygia o embate amoroso como suporte de autoconhecimento humano, mesmo sendo um autoconhecimento que leve o sujeito a se enxergar como um solitário.

As questões moralmente complexas do homem são vividas pelos personagens lygianos como situações intrínsecas ao sujeito humano, e não como aleijo do comportamento de um grupo, ou de um sujeito em particular. A falta do final feliz, ou do “felizes para sempre”, deixa uma sensação de vazio depois da leitura das obras de Lygia. No entanto, não estamos afirmando, com isso, que sua obra seja pessimista, ou de leitura difícil e desagradável. Pelo contrário, o intuito é referendar uma escritora que, completando 90 anos de idade, e 60 anos dedicados à literatura, desempenha seu ofício com muita coerência e amor, tão defendidos por ela. Além disso, aborda temas complexos e espinhosos, sem perder a ternura, e com uma linguagem primorosa e de grande beleza estética. Diríamos que, a literatura de Lygia Fagundes Telles transporta o leitor para as entranhas da alma, revelando as vicissitudes da complexa vida humana, com destaque para a ilusória busca pelo amor, ou a ideia que se tem de amor, sem, no entanto, resolver estas questões, que são claramente insolúveis.


***

Maria Aparecida Costa atualmente trabalha em sua tese de doutorado sobre a configuração do amor no romance contemporâneo a partir das obras de Lygia Fagundes Telles e Lídia Jorge. O "Lygia Fagundes Telles e a escrita do amor" foi escrito a convite do mantenedor deste blog.


  

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Inferno provisório, de Luiz Ruffato

L’amour, de Michael Haneke

A religiosidade clandestina de Hermann Hesse

O Bovarismo como pedra de toque na obra de Lima Barreto

Rupi Kaur: poeta reconcilia o passado das mulheres indianas e transforma sua dor em tema universal

Como alguém se transforma num escritor? Dez notas sobre o primeiro livro

Entre a interdição e a plenitude: treze livros para o Orgulho Gay

Clara dos Anjos: a chaga dos anos 20

O progresso do amor, de Alice Munro

Apontamentos sobre alguns textos curtos de Tolstói