Roberto Bolaño




Roberto Bolaño tornou-se indispensável na já extensa bibliografia de escritores latino-americanos necessários de ler; o fato é que isso é novidade. Até sua obra se tornar Cult, o caminho terá sido muito longo, como foi para muitos dos grandes escritores. Por exemplo, o escritor sempre se definiu como poeta e foi na poesia que começou a sua escrita, mas depois teve que debandar para a prosa e foi na prosa que ele se tornou reconhecido.  Agora, não é caso, ainda, de que o chileno seja incluído nesse rol dos grandes; isso, ainda há de se passar um bom tempo para ter uma confirmação. O que vai se confirmando, entretanto, pelo culto em torno do escritor, ou melhor, antes do culto, é o fato de que Bolaño é peça fundamental para um novo lugar para a literatura produzida na América Latina, que desde o boom literário na década de 1960, foi se tornando clichê pelo lugar comum do maravilhoso como experiência estética. 2666, um dos seus romances mais próximos do público de língua portuguesa, por exemplo, ao longo de suas 800 páginas não é possível pinçar nada mais que um relato que conjuga os horrores dos assassinatos de mulheres na fronteira mexicano-americana com um estudo da frivolidade cúmplice que Bolaño via como característica das cliques acadêmicas e literárias – utilizando ipis literis de uma definição permitida pelo Idelbe Avelar*.

Bolaño também foi um autor que produziu para a posteridade. Esse catatau 2666 e muito do que tem chegado a nós nos últimos anos são produtos póstumos. Recentemente, por exemplo, numa mostra no Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona, a viúva do escritor, Carolina López, deu mostras de muitos cadernos manuscritos e textos datiloscritos originais que devem preencher ainda pelo menos quatro romances inéditos: O espírito da ficção científica, escrito em 1984 e dedicado a Philip K. Dick, Diorama, A viagem de Barcelona e La Paloma Tobruck. Sorte dos leitores que têm pela frente ainda muito a se explorar da obra de Bolaño, escritor que quando foi se tornando de culto foi levado pela morte muito precocemente, quando ainda nem tinha 50 anos, em 2003.

Roberto Bolaño em Barcelona, 1979.
Morte, aliás, descrita como um acontecimento corriqueiro – talvez porque ninguém sabe quando exatamente a morte há de chegar, talvez pela verve do bom humor com que o escritor sempre encarou determinadas questões. Antes de sair para o Hospital Valle de Hebrón, em Barcelona, na madrugada de 15 de julho, diz Carmen Pérez de Veja, namorada do escritor quando da sua morte, quem o acompanhou nessa última noite e narra todo o capítulo 15 de El hijo de Míster Playa – Una semblanza de Roberto Bolaño, biografia publicada no México em 2012, pela argentina Mónica Maristain, jornalista que apesar não ter conhecido pessoalmente o escritor, manteve uma extensa correspondência por e-mail e teve a oportunidade de uma última entrevista com ele no mesmo julho de 2003, o escritor ainda escutou pela última vez “Lucha de gigantes”, de Nacha Pop, uma de suas canções favoritas, e às 2 da manhã levantou-se para preparar um arroz – um prato que sempre se gabava de cozinhar de mil maneiras distintas.

Antes de tudo isso, já Bolaño era conhecido como romancista e poeta; lido por Mario Vargas Llosa, recomendado por Carlos Fuentes e por uma lista variada de escritores de língua espanhola, Javier Cercas, Enrique Vila Matas, Juan Villoro, Alan Pauls... Entre 1998 e 1999 já havia ganhado dois prestigiosos prêmios literários, o Prêmio Herralde e o Prêmio Rómulo Gallegos pelo seu romance Os detetives selvagens, publicado aqui no Brasil em 2006. No ano seguinte, quando traduzido ao inglês, o romance foi lido pelo The New York Times como um dos melhores livros então publicados. Tanto “populismo” deve-se segundo o escritor argentino Andrés Neuman, ao não apenas o imenso talento literário de Bolaño, quanto à falta de novas referências literárias tão unânimes quanto foram nomes como Gabriel García Márquez, o próprio Vargas Llosa, Julio Cortázar etc. A capacidade dele em poetizar como ninguém a trajetória de rebeldia, busca e desilusão dos jovens latino-americanos dos anos 60 e 70, pontua Neuman, é outro fator que contribui a este lugar alcançado pela obra do escritor.

Dois cadernos de manuscritos de Roberto Bolaño patente na exposição em Barcelona. O primeiro, "Diário de Vida - poemas curtos - vol. III" é de abril de 1980; o segundo, "A virgem de Barcelona - Textos, Poesias, Fragmentos, Rabiscos", de 1978. Os dois materiais foram produzidos na cidade espanhola.


Admirador de Borges, Cortázar e Di Benedetto, Bolaño se definia como um autor latino-americano. Dizia que sua única pátria era seus dois filhos e talvez, num segundo plano, alguns instantes, algumas ruas, alguns rostos ou cenas ou livros que estavam dentro de si. Sua vida esteve feita de aventuras e riscos. Desde 1978 e durante anos, ganhou a vida na Catalunha, onde já vivia sua mãe, como vigilante noturno de um camping, enquanto ganhava pequenos concursos literários na Espanha e encaminhava seus manuscritos para as editoras de Barcelona, até conhecer Jorge Herralde, o proprietário da Anagrama, que desde então, iria publicar suas obras.

Mas, a vivência de Bolaño com a literatura veio muito antes, ainda nos idos de 1974, no México, formou com os poetas Mario Santiago e Bruno Montané o movimento Infrarrealista. O verdadeiro poeta é o que sempre está abandonando-se, nunca permanece demasiado tempo num mesmo lugar; sua escritura está associada ao experimentalismo. Essas eram algumas das vertentes defendidas pelo movimento. Defendidas e levadas adiante pelo escritor. Escrever maravilhosamente bem não era, para ele, o passaporte seguro para uma literatura de qualidade. Se tratava do escritor saber jogar-se no escuro, saber saltar no vazio, saber enfim que a literatura é um ofício perigoso. E nas palavras e nos feitos de Bolaño há um jogar-se o todo pelo todo, um arriscar-se totalmente pela literatura, concorda o escritor boliviano Edmundo Paz Soldán, autor de Bolaño Salvaje, um dos primeiros livros de crítica em que acadêmicos, escritores e amigos comentam sobre a obra de Bolaño; o livro contém ainda muitos textos inéditos do escritor.

Bolaño foi um autor que não dispensou polêmicas. Dizia em voz alta que não suportava a poesia de Octavio Paz, que ler Antonio Skámeta revolvia-lhe o estômago e que Isabel Allende não era uma escritora. Suspeito que Bolaño tinha uma máxima que nunca formulou explicitamente, mas que parecia cumprir com rigor jocoso: toda a cumplicidade para os jovens, nenhuma piedade para os consagrados, recorda Andrés Neuman, que foi seu amigo. O escritor peruano Iván Thays nota que Bolaño fugia de todo o estrelato: sabia bem o quão difícil era o caminho e embora estivesse orgulhoso e consciente da qualidade de sua própria obra, não estava disposto a converter-se numa estrela distante.

Chegada de Roberto Bolaño em Madrid, em 1977.

Bolaño nasceu em Santiago e passou os primeiros anos no litoral sudeste do Chile. A paixão pelos livros veio justamente por causa desse cenário; julgava-se ansioso e pouco se metia com os outros e substituía quase tudo pelos livros. Foi para o México ainda adolescente com os pais; aí largou os estudos e foi trabalhar como jornalista. É também quando se inicia na vida política do país. Ainda voltou ao país natal em 1973 quando em apoio ao regime socialista de Salvador Allende. Foi preso pelo regime de Augusto Pinochet. O retorno para o México depois desse incidente terá convertido Bolaño num andarilho: El Salvador, Paris, Espanha... Foi no último país onde fixou residência. Ao Chile ainda voltou, mas só uma vez mais. Nunca se sentiu à vontade em seu próprio país.

A vida errante de beat foi sendo aos poucos abandonada quando veio o primeiro filho. É quando o escritor sai da poesia e arrisca-se na ficção. A ficção veio-lhe, disse várias vezes, porque se sentiu responsável pela estabilidade financeira da família que nunca poderia ser assegurada apenas com seus ganhos de poeta. 

No Brasil, sua obra começou a ser publicada em 2004 com Noturno no chile, ao que se seguiram Os detetives selvagens, 2006, A pista de gelo, 2007, Putas assassinas e Amuleto, 2008, Estrela distante, 2009, 2666, 2010, O Terceiro Reich e Monsieur Pain, 2011, Chamadas telefônicas, 2012 e As agruras do verdadeiro tira, em 2013.


Ligações a este post:
Anexamos ao canal do Letras no Youtube duas entrevistas feitas com o Roberto Bolaño em 1999, ano em que voltou pela última vez ao Chile. A primeira pode ser assistida aqui e a segunda aqui.

No Tumblr, anexamos três manuscritos com desenhos do escritor, aqui.


* As opiniões aqui expressas bem como partes no texto são cópias traduzidas do texto “Roberto Bolaño: un escritor de culto”, publicado na Revista Ñ.

* Refiro-me ao texto “Cânone Literário e Valor Estético: notas sobre um debate de nosso tempo” publicado em 2009, na 15ª edição da Revista Brasileira de Literatura Comparada.



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